A importância do latim na atualidade

Latim 2

Mário Eduardo Viaro

RESUMO

Este artigo pretende ser apenas um trabalho de divulgação acerca da importância que a língua latina ainda exerce sobre a língua portuguesa. Será dada uma ênfase especial ao ensino do latim, que serve como um ótimo instrumento para entender as irregularidades e as exceções da gramática portuguesa.

Palavras-chave: língua latina, regras gramaticais, composição de palavras.

ABSTRACT

This paper intends to be only a popularization work about the important influence of the Latin upon the Portuguese language. A special emphasis will be laid on the Latin teaching, which is useful as an excellent way to understand the irregularities and the exceptions of the Portuguese grammar.

Key-words: Latin language, grammatical rules, word composition.

O latim, como tantas outras coisas de nossa sociedade, é amiúde objeto de polêmica: se, por um lado, grassa o saudosismo daqueles que lastimam a sua exclusão do primeiro e segundo graus, por outro, abundam depoimentos de pessoas “traumatizadas” com a dificuldade que tiveram em aprendê-lo pelo método tradicional. Essas opiniões causam certa apreensão nos alunos de Letras, ao virem que Língua Latina é disciplina obrigatória em sua grade horária. Alguns têm a expectativa de encontrarem uma panacéia para todos os problemas da língua portuguesa, outros esperam algo terrivelmente difícil, quase intransponível. Mas que é o latim? Desde o primeiro texto em latim, a Fíbula de Preneste, do século VII a.C. o latim desenvolveu-se como qualquer língua, deixando seus traços em autores antigos, os quais conhecemos apenas por fragmentos de suas obras: Lívio Andronico, Névio e Ênio. Mais tarde, aparecerão os textos de Catão e as comédias de Plauto e Terêncio, escritas num latim bastante diferente daquele do séc. I a.C., quando começa a chamada fase clássica da literatura latina: César, Cícero, Ovídio, Horácio, Vergílio, Catulo. No período pós-clássico vem a narrativa de Apuleio, Pérsio, Juvenal, Marcial, Vitrúvio, Tácito, Petrônio, Plínio, Sêneca e dos autores cristãos: Amiano Marcelino, Lactâncio, Ausônio, Santo Ambrósio, Carísio, Santo Agostinho e na Vulgata, tradução latina da Bíblia, feita por São Jerônimo, cujo estilo inspira toda a Idade Média. Desde Varrão, a língua sofre normatização, reforçada por Quintiliano, Donato, Macróbio, Consêncio, Pompeio, Sidônio Apolinário. Durante toda a Idade Média, o latim adquire o status de Língua Universal: as leis francesas são escritas em latim até séc. XVI, as autoridades escrevem tudo em latim: as etimologias de Isidoro de Sevilha; os tratados de música de Boécio; livros de medicina (Marcelo Empírico. Oribásio), de culinária (Apício), de veterinária (Vegeto Renato), de conservação dos alimentos (Ântimo) e sobretudo textos religiosos. Lê-se Aristóteles em sua tradução latina, assim como a Bíblia. No Renascimento, o modelo sintático e de estilo para o desenvolvimento das línguas modernas foi o latim, assim como o esquema gramatical sobre a qual são descritas. Até recentemente, não só as missas, mas as descrições da Zoologia e da Botânica eram todas em latim; os nomes científicos, todavia, ainda o são. E vem sempre a pergunta fatídica: mas hoje para que serve o latim? Costumo dizer que isso não é pergunta que se faça, mas já que é feita, perguntas são para ser respondidas. Em nosso século, em que imperam a eletricidade e a velocidade, parece de fato estranho e até anacrônico, à primeira vista, o estudo do latim. Qual a utilidade de uma língua morta, que requer atenção, dedicação e esforço? Em que isso vai ajudar a mudar minha vida, fazendo-me galgar posições mais elevadas da sociedade? Tudo depende de como se encara o problema. Com o latim aprenderemos a compreender melhor o nosso idioma, que contém mistérios interessantíssimos. O latim serve-nos de trampolim para mergulhos mais profundos na nossa visão de mundo, no nosso modo de pensar, na nossa vida. Aquele que entende bem a mensagem que o latim passa em seus textos se questionará melhor e verá que antes de nossos valores, havia outros, muito distintos, mas perfeitamente coerentes, que merecem nossa admiração e respeito. Longe de ser retrógrado, o estudo do latim associado ao estudo da vida social em Roma nos faz vislumbrar quanta coisa mudou e quanta coisa ainda continua surpreendentemente do mesmo jeito que era, muitas vezes apenas com os nomes trocados. Sim, porque o que se herdou do Império Romano ao longo desses vinte e sete séculos de uso do latim escrito não foi pouco. Resumindo, eu responderia à pergunta do título com uma outra pergunta: por que não estudar o latim?

Além disso, de língua morta o latim não tem nada. Vejam, por exemplo, quantas expressões são usadas em Direito. Quem nunca ouviu falar de habeas corpus? de alibi? de data venia? O latim não está de forma alguma morto, está no nosso dia-a-dia: quem nunca mandou um curriculum vitae? Quem nunca ouviu falar de renda per capita? Ou pensou em fazer uma pós-graduação lato sensu? Ou ouviu que alguém é doutor honoris causa? Quem nunca fez um P.S. ao fim de uma carta? Ora, isso também é latim: post scriptum. Essa antiga língua de Roma está nas tecnologias mais modernas, está na fecundação in vitro, nas invenções mais recentes: está, por exemplo, no fax (abreviação de fac simile, que significa “faça de maneira semelhante”, não é isso que faz o fax?). Mesmo muitas palavras importadas do inglês remontam ao latim: na Informática usa-se o verbo deletar, do inglês to delete, que vem, por sua vez, do verbo deleo em latim, que significa “destruir”. De tão entranhado na nossa língua, o latim até se confunde com ela: idem é latim, a expressão grosso modo também (por isso, é errado dizer “a grosso modo”), o supra summum, o et caetera, até a expressão vulgo, quando dizemos José Carlos vulgo Zeca. E há muito, muito mais: expressões como a priori, alter ego, causa mortis, ex libris, exempli gratia, Homo sapiens, in continenti, in loco, ipsis litteris, lapsus linguae, modus vivendi, mutatis mutandis, pari passu, persona non grata, ad hoc, sine qua non, scilicet, sic, status quo, carpe diem, sui generis, ab imo pectore, tabula rasa, vade mecum, vade retro, Aedes aegypti, só para citar as mais comuns, dão um sabor todo especial à redação de um texto e – por que não? – à fala, sem falar de provérbios como alea jacta est, cogito ergo sum, mens sana in corpore sano.

Portanto, aprender ou não o latim não é a questão. Ele já convive conosco, pois é a alma de nossa língua e bastaria reconhecê-la. Com o latim, vemos que as irregularidades e as temíveis exceções das gramáticas não são nem irregulares, tão pouco exceções. Tudo passa a ter uma lógica mais clara e previsível. Se já conhecemos bastante latim, por que não saber mais? Ampliando ou aprimorando nosso vocabulário, não nos destacamos? Está respondida a pergunta daquele que quer mudar sua posição social.

Mas não só do latim fez-se nossa língua: algum conhecimento do grego, assim como do tupi, faz-nos vislumbrar de muito perto aquilo que Platão chamava de “a verdade da palavra”, isto é, seu étimo. Assim a palavra “comer” vem do latim comedere, o que pode ser indicado em gramática histórica desta forma: comedere > comer. Portanto, o étimo de comer é comedere, que significa em latim, “comer junto com outras pessoas”. Muitas palavras que conhecemos têm relação direta com outras, do latim, mas às vezes é preciso colocá-las lado a lado e não é raro termos alguma surpresa: volare é o verbo latino para “voar”. Sua relação direta com o português é flagrante, uma vez que volare > voar, com a perda do -l- entre vogais e do -e final, como em tantas outras palavras: dolorem > door > dor; colorem > coor> cor. Mas o radical latino VOL, com o l, não sumiu, antes pode ser encontrado em outras palavras. Por exemplo, quando dizemos que o álcool é um líquido volátil, queremos dizer que ele pode voar. Já viu o que acontece com a garrafa de álcool quando fica destampada?

     Aquila aparece na palavra portuguesa “águia”, com a mesma perda do -l- e a transformação q > g (assim como aqua > água) são previsíveis, contudo o radical antigo, AQUIL, é encontrado quando dizemos que alguém tem o nariz aquilino, isto é, em formato de bico de águia. Nato, ou melhor, o infinitivo natare aparece em português como nadar, com queda do -e final e transformação regular t > d. Por que será que a prática esportiva na qual se nada é a natação (com t) e não a “nadação”? Por causa do radical latino NAT. Agora também fica fácil entender o adjetivo natatório “que serve para nadar”. Laborare originou o verbo lavrar em português, donde lavrador, lavradio, lavoura etc. O radical LABOR, porém, aparece em muitas palavras: laboratório “local onde se trabalha”, laborioso “trabalhoso” ou ainda, com o auxílio de prefixos colaborar “trabalhar com (alguém)”, elaborar “preparar algo, trabalhando” entre outros. Em vez de dizer prolixamente “tive de fazer o trabalho de novo”, a frase fica mais precisa se dissermos “tive de reelaborar o trabalho”.

O radical de dominus “senhor” se vê facilmente em dominar, domínio, dominação, condomínio. No entanto, o desgaste do tempo torna as palavras pouco reconhecíveis. Domina “senhora” se transformou em dona e seu diminutivo popular dominicella em donzela. Também o adjetivo dominicus “do senhor”, nome a que Constantino atribuiu o primeiro dia da semana, tornou-se domingo.

Do mesmo radical de exspectare “esperar” temos expectativa. A palavra stella “estrela” se diz estrela, com R, mas o coletivo de estrela é uma constelação e uma viagem entre as estrelas é uma viagem interestelar. Também há o nome próprio Maristela, do latim maris stella “estrela do mar”. O verbo “ver” em latim se diz video, cujo radical se encontra em videoteipe mas também em vidente “que vê”, previdência “ato de ver antes de algo acontecer”, evidente “algo que todos vêem”. Como video, conhecemos hoje o verbo audio “ouvir”, presente no radical de audição, auditivo. “Asa” se diz ala, daí dizer de um cavalo alado, isto é, “com asas”. Voro significa “devorar” e está hoje no radical de voraz.

     Magistra “professora” originou as palavras maestra e mestra. Do mesmo radical temos: magistério, magistral. Nauta “marinheiro” está presente, por exemplo, em astronauta “navegador dos astros”. Do radical DISC, do verbo disco “aprender”, que vemos em discípulo, tiramos corpo discente, grupo de alunos. Por isso discente se escreve com SC e não com SS. Da mesma forma, docente se escreve com C, pois vem do latim doceo, que significa “ensinar” Agricola, no latim, é quem mora no campo (ager), assim como silvícola, no português, é quem mora na selva (silva). Observem quantas palavras têm esse radical AGR: agrário, agricultor, agricultura.

Quantas palavras há no dicionário, esperando para que as usemos? Sollertia “habilidade” em latim também aparece no português solércia (ou no adjetivo solerte “esperto, sagaz”). O radical de vitupero “repreender, ofender” aparece em muitas palavras: vituperar, vitupério, vituperável, vituperioso, vituperador. Também puella “menina” aparece no adjetivo português puelar “relativo à mocinha”. Muitas palavras até então desconhecidas passam a ter sentido logo nas primeiras aulas de latim, seja nos textos do dia-a-dia, seja na Literatura: columbino, columbiculor, columbário, ranário, ciconiforme, sédulo, ancilar, lunático, impugnar, expugnar, pugnaz, repugnante, bialado, coronária, obtemperar, sapiência, muscívoro, magnânimo, laudatório, déia.

Em latim, as preposições juntam-se também aos verbos, transformando-se em prefixos. O sentido básico é mantido, mas adquire uma precisão incrível:

volo “voar”     –     curro “correr”

advolo “voar para perto de”     –     accurro “correr para perto de”

avolo “voar para longe de”     –     acurro “correr para longe de”

Observe que, às vezes, ocorre a assimilação de consoantes, ou seja, duas consoantes diferentes se tornam iguais como em ad+curro > accurro assim como sub+curro > succurro “correr para baixo (para amparar, logo, para socorrer)”. Alguns derivados mudam de sentido, assim: voco significa chamar (mesmo radical de vox, vocis “voz”, presente em vogal, vocativo, etc.): advoco é “chamar para perto”, daí advocatus, “o que foi chamado para perto (a fim de ajudar), isto é o advogado; invoco “chamar para dentro”, donde invocar; provoco “chamar para a frente (a fim de brigar)”, donde provocar
Mais exemplos:

cado “cair”     –     rapio “pegar, roubar”

incido “cair dentro”     –     corripio “pegar tudo junto”

decado “cair do alto”     –     surripio “pegar por baixo (do pano)”

Observe que, juntamente com a prefixação há a apofonia, ou seja, uma modificação da vogal (cado > -cido; rapio > -ripio) além da assimilação já vista (com+rapio > corripio; sub+rapio> surripio).
Também entender o mecanismo da prefixação, da apofonia e da assimilação são essenciais para relacionar palavras do português a suas raízes latinas:

capto “pegar, tomar”

excepto “tomar para fora => retirar” (observe a apofonia capto > -cepto)

Desse verbo vem o substantivo exceptio “ato de retirar”, donde o português exceção (cf. inglês exception). Que é a exceção senão “retirar (de dentro de uma regra geral)”?
Isso explica por que “exceção” não se escreve com SS. A seqüência ti em latim transformou-se em ç no português.

Um exemplo:

“Sessão” vem de sessio, do verbo sedeo “estar sentado”. Que fazemos numa sessão de cinema? Do mesmo radical SED temos a sede (com é aberto), que originalmente significa um local onde se pode sentar. Também a mesma palavra sede se transformou em. Que dizer de uma pessoa sedentária? Não é aquela que não se movimenta, isto é, que só fica sentada? Quem preside é, do ponto de vista etimológico, aquele que se senta à frente dos outros (em latim praesido, com apofonia), donde a palavra presidente. Observe que em sessão, o radical SED passa para SESS. A transformação D > S dos particípios latinos ocorre em muitos casos do português, por isso temos: ofender – ofensa, pretender – pretensão, compreender – compreensão, ascender – ascensão, repreender -repreensão. A palavra sessão aparece também em obsessão, que era o ato de estar sentado, atrapalhando a passagem de outros, donde a idéia de obstinação (esse mesmo prefixo ob- ainda se vê em obcecado “que tem algo que impede enxergar”, do radical caecus “cego” e obstar “estar de pé impedindo a passagem”).

“Cessão” vem de cessio, do verbo cedo “ceder, dar”. Daí dizer de uma cessão de direitos. Observe, como dito acima, que o radical CED passa para CESS (lembre-se: em latim CE se lia KE). Desse verbo temos conceder “dar tudo junto” e derivados como concessão. Não confundir esse verbo cedo, com outro, homônimo, que significa “andar”, donde temos muitos derivados: proceder é “ir à frente” (donde, processo, procissão), retroceder é “ir para trás” (donde, retrocesso) , exceder é “ir para fora, transbordar” (daí excesso, excedente, excessivo).

“Seção” (ou na forma erudita “secção”) vem de sectio, do verbo seco “cortar”. Que é uma seção senão um departamento, uma parte cortada de um todo? Assim, no supermercado temos a seção de frios, numa loja a seção de roupas femininas. O radical SEC é visível em dissecar “cortar em todas as partes” ou na matemática, na secante, aquela reta que corta a curva. Veja que nessa palavra ocorreu o mesmo que em “exceção”: o ti latino se transformou em ç (sobretudo nos sufixos nominalizadores -ição, -ação) ou em z, no português. O paralelo Z-Ç aparece em muitas palavras derivadas do latim: induzir – indução, deduzir – dedução, reduzir – redução, traduzir – tradução. Às vezes também há exemplos de T-Ç: secretar – secreção, perfeito – perfeição, isentar – isenção, cantar – canção.

Mais uma utilidade do latim: sabendo as etimologias, dificilmente cometemos erros de ortografia!

Por último, as muitas formas nominais dos verbos latinos (particípios presente, passado e futuro, gerúndios, supinos e gerundivos) são fonte inesgotável de derivações. Assim, o verbo canere “cantar” tem o particípio passado cantus “cantado”, de cujo radical CANT saiu o verbo cantare. Do mesmo radical temos accentus “acento”, resultado de prefixação e apofonia: ad+cantus “que acompanha o canto, ou seja, a melodia da fala”. Da mesma forma capio “pegar” (ainda vivo no italiano io non capisco “não entendo”, literalmente “não pego o que você diz”) tem particípio passado captus, donde o verbo captar. Ou ainda, no mesmo caminho o verbo latino rapio “roubar” e o português raptar. Menos evidentes, os verbos irregulares oferecem duplicidade etimológica: assim refero “levar para trás” passou ao português como referir, e seu particípio passado relatus “aquilo a que se refere” gerou o substantivo relato e o verbo relatar. Alguns verbos não parecem, à primeira vista, com nada do português, como tango “tocar”, mas seu particípio passado tactus tem raiz mais= familiar: o tato é o sentido do toque, intacto é aquilo que não foi tocado, tatear é mover-se tocando em coisas, para não falar de contato. Que dizer de tangente, aquela reta que toca a curva, ou da palavra intangível? O mesmo podemos dizer de frango “quebrar”, cujo sentido só é visível talvez em frangalhos, mas cujo particípio passado fractus tem vida maior: fratura “quebradura”, frágil “fácil de quebrar”, fração “número quebrado”. Aliás, infração é a “quebra das normas”, do verbo infringir, que vem de infringo “infringir”, ou seja, in+frango, com apofonia! O verbo alo significa “alimentar”, donde o particípio passado altus “alimentado”, daí o sentido atual de alto…O verbo latino caedo significa “cortar”, cujo particípio passado é caesus. Deste radical temos Caesar “César”, nome próprio que se converteu em título não só em Roma: Kaiser, na Alemanha e Czar na Rússia. Mas Caesar significa “o que foi cortado”, pois nasceu da operação conhecida como cesariana. O latim ainda nos ajuda a entender as irregularidades do português. A primeira pessoa do singular do verbo precaver não é “precavejo”, muito menos “precavenho”, pois o verbo não é derivado nem de ver nem de vir, mas do latim caveo “tomar cuidado”, isto é, praecaveo “tomar cuidado antes”. O particípio passado de caveo é cautum, donde cautela, acautelarse, incauto, cauteloso, entre outros. O supino do verbo fallo “mentir” é falsum, isto é, “falso”, mas o radical do presente ainda se vê em falácia. O verbo maneo “ficar, permanecer” tem o supino mansum, de onde vem a palavra manso, ou seja, aquele que fica no lugar, que não reage. Semelhantemente temos quietum, supino de quiesco “descansar”. O particípio passado de pungo “picar” é punctus, ou seja, o ponto de uma picada de inseto. Já o particípio presente do mesmo verbo é pungens, pungentis “que pica”, daí dizermos que uma dor é pungente. O verbo careo significa “não ter”, donde o particípio presente carens, carentis “aquele que não tem”, isto é, o carente. Do supino do verbo repo “rastejar” temos reptum, por isso dizemos que a serpente, por rastejar, é um réptil; aliás, serpente é o particípio presente serpens, serpentis do verbo serpo, que é um sinônimo de repo. Os verbos originais escondem um sentido que se evidencia nas formas nominais: de clepo “roubar” reconhecemos o particípio cleptum, na palavra cleptomaníaco; salio não parece significar “saltar”, até que vejamos o supino saltum; nem sepelio parece significar “enterrar” até que conheçamos o particípio presente sepultus, que lembra sepultar; nem taceo lembra “calarse” até que encontremos o particípio tacitus, donde provém a palavra portuguesa tácito, isto é, “sem palavras”. O verbo rideo “rir” tem o supino risum, donde o português riso, mas o radical RID é visível em ridículo, aquilo do qual se ri. Do verbo cado “cair” nasce a expressão estrela cadente, ou seja, estrela que cai, como de decado “cair do alto” temos decadente “que cai de uma posição social alta”. O verbo ago “fazer”, tem particípio presente agens, agentis “aquele que faz”, por isso na gramática temos o “agente da passiva”. O mesmo verbo ago tem particípio passado actus, donde vem a palavra ato, isto é, o que foi feito. Do neutro plural do mesmo particípio passado temos ata “as coisas que foram feitas” e do gerundivo temos agenda, isto é, “as coisas que devem ser feitas”. Também do gerundivo temos propaganda “as coisas que devem ser propagadas”, oferenda “o que deve ser oferecido”, merenda “o que deve ser dado a quem merece”.

Concluindo, o latim possibilita-nos aprender melhor outras línguas. Assim, o verbo absum “estar ausente” tem o particípio presente absens, absentis “o que está ausente”: em inglês, temos absent “ausente”. O verbo caleo significa “aquecer” e seu particípio presente é calens, calentis “o que está aquecido”, donde espanhol caliente “quente”. O verbo exeo “sair” tem particípio passado exitus, de onde veio o inglês exit “saída”. Também transfero “levar para o outro lado” gerou o verbo transferir em português, enquanto seu particípio passado irregular translatus criou o verbo em inglês to translate “traduzir”, isto é, “transferir de uma língua para outra”. O verbo deleo “destruir” parece-nos mais familiar quando vemos seu particípio passado: deletus, donde vem o inglês delete e daí o nosso deletar… Não é incrível que o português, sendo uma língua vinda do latim, tenha de emprestar palavras do inglês, que é uma língua germânica, para se relatinizar?
Depois de tantos exemplos, não é difícil concluir que a importância da língua latina hoje não diminuiu em nada ao longo dos tempos. Ela continua sendo o cerne de nosso idioma e a principal chave para a compreensão dele. Sem a base latina chegaremos à conclusão de que o português é uma língua com muito pouca produtividade do ponto de vista das raízes, o que não é verdade. Na década de 50, o professor de Filologia Românica Maurer Jr. (1951), respeitado internacionalmente pelos especialistas de sua área, já havia defendido a tese de que o latim servira, durante toda a Idade Média, como elemento principal de uniformidade entre as línguas do Império Romano Ocidental. Conhecer sua estrutura e seu funcionamento, a produtividade de suas raízes, de seus prefixos e sufixos, faz-nos deslindar melhor o verdadeiro significado das palavras em português, isto é, seu étimo. Facilita, além disso, na aprendizagem de outras línguas românicas: espanhol, francês, italiano, romeno. O inglês, apesar de não ser derivado do latim, participou da mesma força unificadora. Mesmo línguas distantes, como o alemão e o russo não se revelaram indiferentes ao latim. Em latim, o comandante se diz dux, donde o português duque, o italiano duce, o veneziano doge. Ora dux vem do verbo duco “aquele que puxa, isto é, que conduz”. O mesmo se vê, como empréstimo, no inglês duke e, por decalque, no alemão: Herzog “aquele que puxa (radical do verbo herziehen)”, donde, “duque”. Do alemão, o mesmo decalque foi para o húngaro, que nem língua indo-européia é! Outro exemplo, em latim temos includere e excludere, respectivamente em português “fechar por dentro à chave, incluir” e “deixar trancado para fora, excluir”. Ora o radical CLUD é apofonia de CLAUD “fechar”, mesma raiz de clavis “chave”. O alemão moldou dois verbos traduzindo essas duas idéias por meio do decalque: einschliessen “incluir” e ausschliessen “excluir”, com o seu radical SCHLIESS “fechar” e com os prefixos ein- e aus-, correspondentes aos in- “dentro” e ex- “fora” latinos. O russo fez o mesmo: vkljucit’ e iskljucit’ com o radical KLJUC “chave” e com seus prefixos equivalentes v- e is-! Também a palavra misericordia foi decalcada pelos alemães como Barmherzigkeit, que traduz os elementos da composição, a saber: miser “coitado” (alemão erbarmen) + cor, cordis “coração” (alemão Herz) e sufixo -ia, para substantivos abstratos (alemão -igkeit). Conscientes disso, muitas vezes, entre os maiores estudiosos de língua latina, encontramos pessoas cuja língua materna aparentemente não tem uma relação direta com o latim, como os alemães e os finlandeses! Como explicar então o descaso que presenciamos para com a língua que é a base da língua portuguesa, justamente no país que tem a maior população de fala românica do mundo, que é o Brasil? Só mesmo o imediatismo, tão freqüente na visão-de-mundo brasileira, pode explicar que o ensino do latim continue visto como desnecessário para o ensino do português, tão ausente e distante ele parece estar das necessidades mais prementes da Sociedade. Os métodos antigos em muito pecaram, dando ao ensino do latim o caráter penoso das infinitas tabelas a serem decoradas pelo aluno, que, por sua vez, não via sentido naquilo. Muitas vezes até textos inteiros tinham de ser decorados. Não querendo tirar o mérito dessa metodologia, que, por seguro, ajudava em muito a desenvolver a memória dos alunos, acredito que atualmente a postura é outra: é preciso revitalizar o valor que o latim tem como um ótimo meio para aguçar a percepção etimológica das raízes do português (e de outras línguas, como visto acima), o exercício da análise sintática, o raciocínio lógico, a ampliação de vocabulário e a curiosidade para entender outros momentos históricos e o desenvolvimento das sociedades e do pensamento até os dias de hoje. As consequências, num segundo momento, aparecerão na compreensão mais clara da ortografia portuguesa, na solução lógica das flexões irregulares e das exceções, no questionamento da nomenclatura tradicional e no vasto repertório histórico-filosófico que o aluno adquirirá, estando, assim, pronto para estabelecer suas próprias analogias e defender seus pontos de vista com mais clareza.

Bibliografia

  • FARIA, Ernesto. Dicionário escolar latino-português. Rio de Janeiro, MEC, 1962.
  • ___________. Gramática superior da língua latina. Rio de Janeiro, Acadêmica, 1958.
  • GAFFIOT, F. Dictionnaire latin-français. Paris, Hachette, 1934.
  • MAURER Jr., Teodoro H. Unidade da România Ocidental. São Paulo, s/e, 1951.
  • RÓNAI, Paulo. Curso básico de latim. Gradus Primus. São Paulo, Cultrix, 1995.
  • ____________. Curso básico de latim. Gradus Secundus. São Paulo, Cultrix, 1995.
  • TEYSSIER, Paul. História da língua portuguesa. Lisboa, Sá da Costa, 1990.

(Revista de Ciências Humanas e Sociais, São Paulo, Unisa, v. 1, n. 1, p. 7-12, 1999.)