Menestréis da burguesia

Cena romana

Afrânio Coutinho

No Brasil, ainda não compreendemos que o intelectual – escritores, professores, pesquisadores, artistas, jornalistas, – devem ser tão profissionais como quaisquer outros trabalhadores. Pensa-se (alto ou baixo) que só têm direito a ganhar pelo fruto de sua operosidade os homens do comércio, da indústria, do banco, das profissões liberais. Os intelectuais, estes têm por missão divertir ou informar – sem que lhes seja dado o direito de também verem o seu esforço compensado em termos materiais, ou, para falar claro, em dinheiro. São as cigarras. Que cantem, cantem, cantem, e morram de fome, depois de estourar pelas costas. Sao os menestréis da burguesia, como outrora, na Idade Média, os trovadores vinham aos castelos dar aos grandes senhores os espetáculos de sua lírica, ou como os saltimbancos, com as suas trupes, para distrair os nobres e ricos no seu permanente lazer. Quando muito lhes eram reservadas algumas migalhas do caldo do banquete em que se empanturrava a glotoneira dos donos da vida e das riquezas.
Chegou-se mesmo, difícil é dizer quem foi a mente diabólica a inventar semelhante doutrina, que era uma desonra um intelectual receber qualquer recompensa material pelo seu trabalho. Tinha que ser gratuito. Fazia parte da honra e da nobreza do trabalhador intelectual nada receber como paga. Devia viver de brisa e de elogios quwe lhes enchiam a vaidade, mas lhes negavam as proteínas e vitaminas necessárias ao seu sustento, e suas famílias – se é que tinham direito de tê-las – que se fomentassem. Em geral, viviam ou antes vegetavam na mais sórdida pobreza. Contanto que o respeito e a glória do doutor fossem lisonjeados pelos grandes. Considerava-se uma “honra” o intelectual ter uma oportunidade de “aparecer”. Não se lembravam que ele tinha que morar, vestir, comer, sustentar a família, adquirir livros.
Trabalhar de graça era a regra que todos admitiam para o intelectual. Para viver, para comer, que arranjasse uma sinecura na burocracia oficial. E os governos eram useiros em fazer vista grossa para com as facilidades que os serviços públicos eram complacentes em relação àqueles parasitas que nada produziam, porque estavam nos cargos oficiais como uma compensação pelo que a sociedade lhes ficava devendo. em vez de um pagamento condigno pelo trabalho peculiar e especializado, dava-se-lhe uma compensação parasitária no serviço público.
Com esse sistema, o trabalho intelectual sempre foi desvalorizado e desmoralizado. Os donos da vida – empresários, proprietários – nunca encaravam os intelectuais como força de trabalho a exigir remuneração condigna e própria ao seu ofício, à altura de seu valor especial.
Nada mais comum, e nada feito com a maior simplicidade e sem cerimônia, do que chamar-se um intelectual, um escritor, um professor, um artista, para realizar uma conferência, ministrar um curso, dirigir um seminário, nada mais comum do que não pagar. Nem se fala no assunto, porque é “feio” mencionar esse assunto do dinheiro. E lá vai o pobre diabo, que levou toda a vida a acumular conhecimentos, a comprar livros, a aperfeiçoar-se na especialidade, e o que lhe dão em compensação é quando muito, um “obrigado” cheio de calor e simpatia.
Decorrência de tudo isso é vermos o salário degradante que se paga ao professor, é o vezo do trabalho gratuito exigido do escritor, é a péssima ou nenhuma recompensa concedida ao trabalhador intelectual.
É chegado o momento de os intelectuais deixarmos de ser os menestréis da burguesia. Impõe-se tomarmos a peito valorizar o nosso produto, pondo um termo ao pagamento ínfimo ou à gratuidade. É mister termos coragem de dizer “não” a quem venha falar-nos em qualquer produção sem dizer de saída quanto vai pagar. E pagar bem, de acordo com o valor do nosso trabalho. Acabamos com esse hábito de contribuir com o nosso esforço grátis para que os magnatas se locupletem à nossa custa, á custa de pagamentos ridículos ou nenhuns. A começar pelos governos. E como é o caso do professorado primário, secundário e superior que só fazem – no ramo particular – enriquecer os proprietários. É hora de fazer ver que sem o professorado e outros intelectuais os problemas brasileiros não se resolverão. Porque o maior problema brasileiro é o da educação. E a nossa mercadoria é a produção da cultura e a educação. Investimos nela um grande capital de vida. Temos que ser recompensados em termo de lucro de moeda, e não apenas de medalhas e glória.