Cidade fictícia

Porto Alegre

Luís Fernando Veríssimo

Eu estava escrevendo um texto sobre Porto Alegre para a revista Quatro Rodas e me dei conta da situação de um viajante que, chegando à cidade pela primeira vez e munido só de um mapa, tenta fazer tudo que lhe foi recomendado.

“Não deixe de conhecer a Rua da Praia.” Certo, mas onde fica essa tal Rua da Praia? Se for pela lógica, o nosso hipotético visitante procurará a praia ao longo da qual corre a mítica rua, ou na qual ela começa ou termina. Logo descobrirá que não há nenhuma praia no Centro e que a principal rua da cidade se chama “dos Andradas” (e só ela se chama assim, porque os outros usam o nome antigo) e ninguém sabe por que era chamada “da Praia”. Só o que se sabe é que ela começa ou termina na ponta do Gasômetro que não é mais gasômetro, passa pela Praça da Alfândega, que durante algum tempo se chamou Praça Senador Florêncio mas voltou a se chamar Alfândega porque ficava na frente da Alfândega, que não existe mais, passa pelo Largo dos Medeiros, assim chamado em homenagem a uma confeitaria que tinha ali e não tem mais (não, não era Confeitaria Medeiros, era Confeitaria Central, Medeiros eram os donos, e, mesmo, este não é o nome oficial do largo, que pensando bem nem é largo) e termina ou começa na Praça Dom Feliciano, que todo mundo chama Praça da Santa Casa.

Confuso, o viajante talvez resolva se queixar na prefeitura, mas deve ter cuidado, pode entrar no prédio errado. Existe uma prefeitura nova atrás da prefeitura velha, que por sua vez fica atrás de uma pracinha não chamada Porto Alegre mas Montevidéu. Na prefeitura talvez lhe digam para ir se queixar ao bispo, tendo que, para isto, subir à Rua da Ladeira até a Praça da Matriz. Mais confusão. A Rua da Ladeira não existe e muito menos a Praça da Matriz. Existem a Rua General Câmara e a Praça Marechal Deodoro, onde fica a Catedral. Serão estas?

“Não deixe de ver o pôr-do-sol do Morro Santa Teresa…”. Mas o motorista de táxi não conhece nenhum morro de Santa Teresa. Não será o morro da televisão? Na dúvida, o visitante se lembra de outra recomendação. Vista bonita mesmo é a do Morro do Turista, do qual o motorista também nunca ouviu falar. Todos conhecem por Morro da Polícia.

Como chegar ao Brique da Redenção, um programa imperdível dos domingos em Porto Alegre? Disseram que fica num grande parque urbano, mas o único grande parque urbano da cidade que o pobre turista (que nem quer saber o que vem a ser “brique” nesta língua estranha) localiza é o Parque Farroupilha. Ele então conclui que está numa cidade fictícia. O que se pode esperar de um lugar que fica à beira de um estuário e o chama de rio?

Decididamente, pensa o visitante, desistindo, Porto Alegre não está no mapa.

(Guia de Porto Alegre, 1993/94, p. 66-67 – Ed. L&PM)