O cimento das palavras

LP
Enquanto palavras lexicais são “cheias” e representam os tijolos da linguagem, as gramaticais são “vazias”, mas são o cimento articulador do discurso.

Há dois tipos de palavras: as lexicais, ou palavras “cheias”, e as gramaticais, ou “vazias”. Palavras lexicais são aquelas que apontam para fora da língua, isto é, representam o mundo à nossa volta, nos permitem pensar a realidade e dar conta da nossa própria vivência. Já as palavras gramaticais apontam para dentro da língua, são meras ferramentas na formação de frases e textos. Se as palavras cheias são os tijolos do discurso, as vazias são o cimento.

Palavras lexicais expressam conceitos, “coisas” que podemos pensar, os quais o psicólogo alemão Karl Bühler dividiu em objetos, processos e atributos (grosso modo, essas três categorias correspondem ao que a maioria das línguas chama de substantivos, verbos e adjetivos). Esses conceitos podem ser fenômenos da natureza (montanha, chover), artefatos humanos (automóvel, escrever), fatos sociais (festa, greve, votar) ou psíquicos (felicidade, hipotenusa). Palavras lexicais são a alma dos dicionários.

Já as palavras gramaticais são a razão de ser das gramáticas. Elas cumprem certas funções sem as quais é impossível falar (de nada adianta conhecer milhares de palavras e não ser capaz de formar frases). Palavras vazias nada significam em termos de pensamento, apenas agem sobre as palavras cheias como conectores (preposições, conjunções) determinadores (artigos, demonstrativos), substitutos (pronomes), etc.

Passado

Estudos científicos aprofundados sobre línguas pré-históricas, o funcionamento do cérebro e a aquisição da linguagem pela criança parecem indicar que, primitivamente, o ser humano usava muito poucas palavras gramaticais. A exceção era talvez um ou outro pronome pessoal ou demonstrativo (nos primórdios da linguagem talvez nem isso). Muitos idiomas ainda hoje dispensam artigos, preposições e conjunções – aliás, o estilo telegráfico, por economia, também faz isso.

No entanto, pouco a pouco foram surgindo na língua essas palavras e também outros elementos gramaticais, como os afixos e as desinências. Acredita-se que grande parte, se não a totalidade, desses elementos eram originalmente palavras lexicais que, com o tempo, se gramaticalizaram, isto é, tornaram-se elos de ligação entre outras palavras ou mesmo parte integrante delas. Exemplos visíveis em português são adjetivos como “conforme” ou “segundo”, que funcionam como conjunções, ou locuções como “em relação a”, que exercem o papel de preposições, e ainda sufixos como ‑mente (de “totalmente”), que nada mais é que o substantivo “mente”, o qual em latim também significava “modo, maneira”. Exemplo semelhante é o do inglês man, que significa “homem”, mas atua como sufixo formador de profissões em palavras como milkman (leiteiro = homem do leite), postman (carteiro = homem do correio), etc.

Muitos elementos de composição de origem grega, como arqui-, paleo-, -logia, -grafia, expressam conceitos lexicais muito claros (“grande”, “antigo”, “discurso”, “descrição”), mas não são palavras autônomas (por isso são também chamadas de semipalavras). Em grego, eram palavras cheias que formavam compostos; esses compostos foram importados pelo português sem que cada um de seus componentes fosse uma palavra em nossa língua. Neste caso, a gramaticalização não se deu nem em grego nem em português, mas na passagem de um idioma ao outro.

Gramaticalização

Como a gramaticalização transforma progressivamente palavras cheias em vazias, tem-se em qualquer fase histórica de uma língua palavras que ainda não se tornaram totalmente gramaticais, guardando certos resquícios de lexicalidade, como, por exemplo, a possibilidade de ser flexionadas. E isso gera certos impasses na análise linguística. Na frase “Há três anos (que) não o vejo”, “há” é verbo ou preposição? De um lado, “há” permite flexão de tempo (“Havia três anos que não o via”) e comuta com “faz”; de outro, comuta com preposições: “Não o tenho visto por três anos”, “De três anos para cá não o vejo”. (Em italiano e alemão, a mesma construção utiliza respectivamente as preposições da e seit, “desde”: Da tre anni non lo vedoSeit drei Jahren habe ich ihn nicht gesehen.) Se “há” é verbo, então o período é composto por subordinação, em que “há três anos” é a oração principal e “que não o vejo” é a subordinada. Mas também é possível considerar que o período é simples e que “há três anos” é adjunto adverbial de tempo; logo, “há” seria uma preposição?

Zona nebulosa

Outro caso curioso é o de “seja… seja”, que equivale a “ou… ou”, “quer… quer”. Na frase “O importante é que a criança leia, sejam livros, sejam gibis”, “sejam” concorda com seu suposto sujeito, “livros”, “gibis”. Já “quer” não concorda (“O importante é que a criança leia, quer livros, quer gibis”), talvez porque aqui “livros” e “gibis” sejam objetos e não sujeitos, e o sujeito de “quer” esteja oculto (mas, nesse caso, quem quer?). Finalmente, se a frase for “O importante é que a criança leia ou livros ou gibis”, a concordância é impossível, pois “ou” é conjunção alternativa, e conjunções não se flexionam.

Como a língua é viva, móvel, dinâmica, nenhum elemento permanece estático numa única função. Se o papel da ciência é classificar e, portanto, distribuir em categorias estanques entidades multifacetadas, fica claro que nenhum modelo teórico, seja ele histórico, estrutural, funcional, gerativo ou qualquer outro, pode dar conta perfeitamente das particularidades de seu objeto. Se hoje há na língua palavras inequivocamente lexicais e outras inequivocamente gramaticais, há uma zona nebulosa entre ambas que desafia os linguistas e embaraça os professores.

 (Língua Portuguesa, n.º 88, /fev/2013.)