Enunciação

Comunicação 2

Juliana Alves Assis

O termo enunciação refere-se à atividade social e interacional por meio da qual a língua é colocada em funcionamento por um enunciador (aquele que fala ou escreve), tendo em vista um enunciatário (aquele para quem se fala ou se escreve). O produto da enunciação é chamado enunciado. No campo dos estudos da linguagem, assim como tantas outras noções, a de enunciação apresenta variações na forma como é definida, conforme a abordagem teórica em que seja tomada.

Bakhtin, Benveniste e Ducrot estão entre os autores mais citados relativamente a essa noção. A despeito das variações no modo como essa concepção é tratada teoricamente, normalmente ela é tomada em relação direta com a noção de enunciado, pois, sem o dizer, ou seja, sem a enunciação, não há o dito, isto é, não há o enunciado. A compreensão do enunciado – oral, escrito ou organizado por meio de múltiplas semioses (linguagens) – pressupõe sempre a situação de enunciação. É dela que vêm as orientações para o sentido do enunciado: (i) quem enuncia (seu papel social e conhecimentos partilhados com o enunciatário); (ii) a quem se dirige (seu papel social e conhecimentos partilhados com o enunciador), (iii) onde ocorre (lugar físico: sala de aula, cantina, p. ex.; espaço institucional: escola, tribunal, igreja, p. ex.); (iv) quando ocorre, entre inúmeras outras condições.  Isso significa, ainda, que o enunciado, embora se revele em uma materialidade linguística, pois dela depende, não é uma realidade da língua; é uma realidade do discurso.

Isso garante que uma oração como “Você veio de carro hoje?”, por exemplo, uma vez materializada em um enunciado, possa ser compreendida de diferentes formas. Assim, quando a mãe de um aluno pergunta à professora “Você veio de carro hoje?”, esse enunciado, para ser compreendido, dependerá, além de conhecimentos linguísticos, dos diferentes fatores contextuais que integram a situação de enunciação. Tais fatores é que determinarão que o enunciado seja interpretado, dentre outras opções de sentido que podem ser projetadas, (i) como uma oferta de carona da mãe à professora, (ii) como um pedido de carona da mãe à professora ou, ainda, (iii) como indício de que a mãe quer avaliar se a professora tem como transportar para casa um grande pacote. O sentido do enunciado depende, portanto, do contexto da enunciação.

Esses e outros aspectos devem ser considerados no trabalho com o texto em sala de aula, de forma que os alunos sejam levados a: (i) reconhecer diferentes formas de enunciados, conforme a natureza dos enunciadores nos textos lidos (narrador, personagens, autor de livro didático, jornalista ou outros), (ii) identificar as marcas linguísticas que sinalizam esses enunciadores nos textos, bem como os enunciatários ali construídos e (iii) recorrer a diferentes elementos da situação de enunciação para produzir sentido.

Referências

  • BAKHTIN, M. Marxismo e filosofia da linguagem. São Paulo: Hucitec, 1990.
  • BENVENISTE, E. Problemas de linguística geral II. Campinas – SP: Pontes, 1989.
  • DUCROT, O. O dizer e o dito. Campinas – SP: Pontes, 1987.
  • FLORES, V. N. et al. Dicionário de linguística da enunciação. São Paulo: Contexto, 2009.