A Mario Quintana

Mário Quintana 1

Manuel Bandeira

Meu Quintana, os teus cantares
não são, Quintana, cantares:
são, Quintana, quintanares.

Quinta-essência de cantares…
Insólitos, singulares…
Cantares? Não! Quintanares!

Quer livres, quer regulares,
abrem sempre os teus cantares
como flor de quintanares.

São cantigas sem esgares,
onde as lágrimas são mares
de amor, os teu quintanares.

São feitos esses cantares
de um tudo-nada: ao falares,
luzem estrelas e luares.

São para dizer em bares
como em mansões seculares,
Quintana, os teus quintanares.

Sim, em bares, onde os pares
se beijam sem que repares
que são casais exemplares.

E quer no pudor dos lares,
quer no horror dos lupanares,
cheiram sempre os teus cantares.

Ao ar dos melhores ares,
pois são simples invulgares,
Quintana, os teus quintanares.

Por isso peço não pares,
Quintana, nos teus cantares…
Perdão! Digo quintanares.

Mario Quintana: Poesia Completa. Org.: Tania Franco Carvalhal. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2005.

(Poema com que o Mario Quintana foi saudado, pelo poeta Manuel Bandeira, em sessão da Academia Brasileira de Letras realizada em 25 de agosto de 1966)