A Produção do Sentido*

José Carlos de Azeredo

A comunicação bem sucedida entre duas pessoas – sejam elas íntimas ou desconhecidas entre si, quer numa relação face a face, quer numa relação a distância – é uma permuta de sentidos negociados graças a uma atitude cooperativa de ambas as partes. O que se entende por sentido, na variedade de usos desse termo, encerra como denominador comum a ideia de orientação. O sentido de qualquer coisa – gesto, sinal de trânsito, logotipo, palavra – é o “proveito” que ele nos propicia em sua condição de guia em algum “território” – geográfico, social, textual. Chamamos sentidos ao conjunto das faculdades naturais que nos situam no mundo das sensações: paladar, olfato, visão, audição e tato. Uma seta na via pública indica o sentido que devemos seguir. Daquilo que nos parece caótico ou absurdo dizemos que “não tem” ou “não faz sentido”. Também “sem sentido” é como qualificamos a vida a que faltam sonhos, esperança… perspectiva, enfim. O sentido é, portanto, o que nos orienta em nossa relação com o mundo e com os seres e objetos que o povoam.

Os sinais sonoros ou gráficos com que se materializam nossos discursos veiculam sentidos que elaboramos durante o processo de falar-escrever e ouvir-ler. Como tudo mais que constitui nossa herança cultural e plasma nossa identidade histórica e social, esses sinais – manifestação da língua que falamos/escrevemos – são uma propriedade coletiva extraordinariamente maleável e adaptável às circunstâncias comunicativas, aos interesses dos indivíduos e aos caprichos do tempo e da história. Conhecê-los para fins interativos é um requisito da vida em sociedade, mas descobrir e explicitar como são e a que leis estão sujeitos em seu funcionamento é tarefa adicional, nem sempre de efeitos práticos evidentes, mas pertinente à aventura histórica do homem em busca do conhecimento.

Entre os objetivos do estudo da linguagem está, portanto, a descoberta dos mecanismos e procedimentos que utilizamos tanto para produzir os sinais sonoros e gráficos que constituem nossos discursos quanto para atribuir-lhes sentido. Uma parte desses mecanismos e procedimentos recebe o nome de gramática, tanto na acepção de conhecimento intuitivo e precário da língua que qualquer usuário possui, quanto na acepção de descrição formal desse conhecimento.

Ao estudarmos uma língua com o objetivo de explicitar sua gramática na segunda acepção acima, baseamo-nos necessariamente em um modelo teórico, o qual constitui, na verdade, uma hipótese sobre como essa língua se organiza estruturalmente para tornar possíveis a expressão e a compreensão de sentidos. O modelo teórico que se adota para descrever o português compreende, por exemplo, a ideia de “classes de palavras”, como adjetivo, verbo e preposição; as noções funcionais de sujeito e objeto; a oposição entre pretérito perfeito e pretérito imperfeito; os conceitos de sílaba tônica e sílaba átona; a distinção entre frase declarativa e frase imperativa, entre diversos outros conceitos.

Nenhum modelo pode ser rígido, mas sempre precisa ser concebido como uma forma homogênea e coerente. Diferentemente, entretanto, do modelo coerente e homogêneo em que o estudioso se baseia para descrevê-la, a língua se apresenta, na realidade de seu uso concreto, como algo dinâmico e flutuante, só parcialmente redutível ao modelo de que estamos falando. Enquanto as categorias e regras que constituem o modelo de descrição nos parecem reconhecíveis como dados discretos e bem distintos entre si, os fatos reais de uso efetivo da língua parecem muitas vezes resistir a uma rotulação certeira e bem sucedida.

Por que isso acontece? Acontece porque, sendo a língua, ao mesmo tempo, um meio de expressão de todos os conteúdos que a mente humana pode conceber e um meio de comunicação desses conteúdos nas mais diversas situações e para os mais variados fins, ela tem a natureza de um sistema extraordinariamente versátil e adaptável.

Pode-se daí concluir que qualquer modelo descritivo tem suas limitações, e que, por isso, toda análise está sujeita a reformulação. Sendo assim, nosso propósito é oferecer uma análise do mecanismo gramatical do uso oculto corrente do português do Brasil que, além de bem fundamentada em corpus escrito representativo, seja não-dogmática e acessível ao leitor médio, estimulando-o a tirar suas próprias conclusões mediante a observação dos fatos da língua.

Em Fundamentos de Gramática do Português. Jorge Zahar Editor, 2000.

*O título é nosso. No livro, trata-se da Apresentação.