Língua e Cultura

Renata da Silva de Barcellos
Fernanda da Silva de Barcellos

A comunicação tem por objetivo propor uma reflexão acerca da relevância do aspecto cultural no processo de ensino-aprendizagem de línguas, a fim de mostrar como o não conhecimento da cultura pode comprometer a face dos interagentes. Para isso, serão utilizados conceitos como interação e negociação (KERBRAT-ORECCHIONI, 2005) e preservação de face (GOFFMAN, 1980).

Linguagem & língua

A partir da leitura da linguagem verbal e da não-verbal, constatamos que para falarmos e sermos compreendidos, ou seja, para interagirmos com outras pessoas por meio de palavras, precisamos ter domínio de uma língua. A língua é assim um veículo de ação social. E como tal, devemos levar em consideração que falar uma língua não se restringe ao vocabulário, é preciso ter domínio também da estrutura da língua e de sua cultura para não só construir adequadamente um enunciado, como também saber se comportar e depreender o sentido dos diversos atos de linguagem de uma determinada língua.

Enfim, a linguagem é o centro dos homens – meio de comunicação e modo de estar no mundo. É na e através dela que há o entendimento ou não entre os homens. A fala é, portanto, uma atividade social (GOFFMAN: 1980) porque é sempre endereçada ao outro com uma determinada intencionalidade, num momento e num espaço.

Variedades linguísticas

A partir do momento em que o homem coloca a linguagem em uso, ocorre a interação verbal, que por sua vez é “o lugar de uma atividade coletiva de produção de sentido, atividade que implica o emprego de negociações explicitas ou implícitas que podem ter êxito ou fracassar” (KERBRAT-ORECCHIONI, 1990: 28). Por isso, ao interagir, emissor e destinatário compartilham códigos e negociam sentidos e posições. Assumindo assim a linguagem o seu estatuto de ação (BRONCKART: 1999) no outro e sobre o outro. Isso significa que toda atividade humana é regulada pela linguagem, mediada pelo agir comunicativo.

Outra questão a ser ressaltada é de que ao aprender a língua materna (LM), o homem assimilará as características pertinentes àquela região. A esses fatores próprios de cada região, tempo e grupo social, chamamos de variedades linguísticas. Ou seja, a língua possui diferenças internas classificadas em diatópicas (espaço geográfico), diastrática (camadas socioculturais) e diafásica (aspecto expressivo). Por exemplo, a palavra sinistro, que outrora tinha valor negativo, atualmente, os jovens a utilizam com valor positivo (significa algo bom). O homem pode também criar outras para designar novas realidades, por exemplo, na área da informática foi criado o verbo deletar (inglês delete) para nomear a ação de apagar e para nomear homem vaidoso foi criada a palavra metrossexual (prefixo metro + radical sexual). Verifica-se assim que a linguagem é um fenômeno social, o homem se constitui enquanto sujeito ouvindo e assimilando as palavras e os discursos do outro.

Enfim, é imprescindível que o professor mostre ao aluno que as línguas (Portuguesa e estrangeiras) não são homogêneas. Ou seja, é preciso que o professor desenvolva um trabalho enfatizando essas diversidades existentes nas línguas. E ressalte que não há nenhuma variedade melhor ou mais correta do que outras.

Preservação da face

Quando uma pessoa endereça a fala ou a escrita a alguém, leva-se em consideração não só o contexto a fim de adequar o registro da língua, o tipo de postura, de vestimenta, etc.; como também as características do interlocutor para preservar a face de ambos implicados numa dada interação. O princípio da preservação de faces é fundamental numa interação, pois cada povo com sua língua materna possui regras culturais que estabelecem como cada indivíduo deve conduzir no convívio social.

Por isso, quando alguém no decorrer do seu discurso apresenta algo inesperado, às vezes, até mesmo infringindo as regras de boa conduta estabelecidas, ocorre o desvio na linguagem, que pode ser classificado como mal-entendido ou gafe (dentre outros). Tanto um quanto o outro deixa a face de um dos interlocutores ou de ambos ameaçada. Portanto, no discurso, o homem recorre a diferentes recursos/estratégias a fim de não comprometer a si mesmo e/ou aquele a quem se dirige, como no seguinte exemplo: <>. O enunciado que consiste num ato de linguagem indireto tem o valor elocutório de pedido pelo fato do enunciador possivelmente estar achando a comida sem sal. Caso o convidado se dirigisse para o anfitrião dizendo: <<Hum, que comida sem sal>>, certamente, o efeito deste enunciado, infrator das regras culturais, sobre o destinatário seria de ofensa e, portanto, a face do locutor estaria completamente exposta a receber qualquer tipo de resposta. É importante ressaltar também que há sociedades em que a face dos interagentes fica mais ameaçada do que em outras, devido às regras de convívio social, o que pode ser observado no seguinte exemplo:

Num estágio de verão de professores de francês, um professor marroquino, ao dirigir-se a uma professora brasileira, lhe diz:

– Você vale muitos camelos.

– Mal-educado, retruca a gaúcha.

Por não conhecer a cultura marroquina, a brasileira não foi capaz de captar a intenção do professor (que, ao realizar tal ato, almejava elogiá-la). Como não reconheceu a força elocutória do ato, o efeito produzido foi o de insulto, de uma ofensa de tal forma que suscitou a réplica (mal-educado), por parte dela. Deixando assim não só a sua face ameaçada (por não perceber a força elocutória do ato realizado pelo marroquino) como a do marroquino (através da sua resposta <>).

Cultura

Segundo Paraquett, cultura é “o conjunto de tradições, de estilo de vida, de formas de pensar, sentir e atuar de um povo” (2000: 118). A partir dessa definição, o professor de línguas deve ter consciência de que, na sala de aula, ele é um representante da cultura de um povo. Pois, o professor de línguas é um difusor de uma dada cultura, visto que a língua é um dos aspectos culturais da sociedade. Portanto, a língua não está dissociada da cultura, ou seja, uma não existe sem a outra, não é mais importante, apenas se complementam.

Dessa forma, ao ministrar aulas de LM ou LE, o professor deve destacar os aspectos semelhantes e distintos entre as línguas, sempre ratificando que cada grupo social tem seus hábitos e costumes e assim cada qual vê o mundo de uma forma. Não podemos exigir que o outro, no caso o estrangeiro, perceba o mundo da mesma forma que a nossa e vice-versa.

A partir dessas considerações, podemos dizer que a diferença existente entre LM e LE é o fato de a LM ser a que o falante desde a infância se sente mais à vontade para se expressar de modo mais natural e espontâneo. Simbolicamente, pode ser representada pelo colo da mãe (CHIANCA, 2001), já que se sente acolhido como o bebê que é protegido pelo seio materno. Quando o falante entra em contato com outra língua, sua LM se torna a língua espelho (DABÈNE, 1990: 16), pois a aprendizagem de uma outra língua proporciona ao aprendiz um olhar exterior à sua LM como se fosse um falante de outra língua. Falar outra língua é assim “navegar à procura de si mesmo” (REVUZ Apud SIGNOZINI, 1998: 7).

Cabe ressaltar que ao longo das décadas, a metodologia ignorou ou utilizou muito pouco o aspecto cultural no processo de ensino-aprendizagem de uma LE. Pois, a ênfase continua sendo o aspecto linguístico (exercícios estruturais, regras de uso, etc.). Assim, ao longo das aulas de acordo com os conteúdos trabalhados, o professor deve se referir ao aspecto cultural. Por exemplo, ao trabalhar o conteúdo alimentação, o professor pode explanar acerca dos hábitos alimentares daquele povo, os pratos típicos, as receitas e a etiqueta de como se comportar a mesa. Concomitantemente, deve verificar as semelhanças e diferenças entre as culturas. A partir desse tipo de trabalho, o professor deve sempre ressaltar que não há cultura melhor do que a outra, pois como cada um de nós temos características próprias, os habitantes de uma região constroem em conjunto seus hábitos, suas regras, suas religiões, sua língua, suas tradições, etc. E, a partir da nossa realidade, o professor pode mostrar ao aluno que apesar de haver essas semelhanças, cada um tem a sua individualidade.

É inadmissível pensar o ensino de uma LE sem que o professor se refira à cultura do povo da língua-alvo. Imagine você em Paris tocando as pessoas ao se dirigir a elas. Essa ação é considerada invasão do território de cada pessoa. E o resultado desse ato pode ser extremamente constrangedor. Assim como é também a questão de se dirigir ao outro para comprar um produto em que há toda uma mise-em-scène. Caso você não o faça, você estará infringindo as regras sociais impostas por aquela cultura. Quando o professor for se referir a algum aspecto cultural da língua-alvo, pode pedir para que os alunos representem como fazem na sua cultura para destacar semelhanças e diferenças. Outra forma de abordar o aspecto cultural é o professor utilizar textos literários, pois representam a cultura de um povo. Assim, ao propor atividades com texto literário, o professor deve discorrer sobre a sociedade e o autor na época em que o texto foi escrito.

O espaço da Literatura na aula de Língua Portuguesa

Como bem disse Bechara, o professor de línguas é professor de linguagens. E como tal, deve trabalhar, concomitantemente, textos literários ao longo das aulas. Pois, a Literatura é a forma de expressão das pessoas de uma sociedade num determinado tempo e espaço. Portanto, como pode um profissional da área de Letras não abordar os diversos estilos, características, etc.? Será, então, que não trabalha também produção textual? Afinal, o texto literário é um tipo de texto. E, por isso, o professor deve trabalhá-lo, até mesmo por causa da questão da intertextualidade que está cada vez mais presente nos enunciados da mídia. A partir da exploração desse tipo de texto e de seus gêneros (poesia, romance, etc.) funcionarem com uma estratégia para se verificar se os alunos assimilaram as características, os autores e as obras de um determinado estilo literário; o professor deve mostrar que se trata de um recurso para enriquecer o texto.

Cabe ressaltar que, ao trabalhar os diversos conteúdos gramaticais, o professor pode e deve fazê-lo também a partir do texto literário. Por exemplo, o tema da colocação pronominal, o professor pode selecionar o poema de Oswald de Andrade. Só não devemos fazer como outrora, em que o material didático só explorava o texto literário. Hoje, se não tomarmos cuidado incorreremos no mesmo erro. Sendo que agora é de utilizarmos apenas texto midiático. Por isso, o professor deve ter cuidado de não utilizar um em detrimento do outro ao longo da sua prática. A Literatura é o modo de expressão de um povo num determinado contexto sócio-político-econômico-cultura. Ao utilizá-lo em sala de aula, estaremos contribuindo para a preservação da memorial social da nossa pátria. Ou seja, para que os alunos valorizem a produção cultural do nosso país.

Uma sugestão é de professor desenvolver um trabalho comparativo entre o texto jornalístico e o texto literário. Nesse trabalho o objetivo é de levar o aluno a perceber que embora o tema seja comum, as características são distintas. Mas, atualmente, percebemos que o texto jornalístico está cada vez mais preocupado com a estética. Característica essa própria da Literatura. Assim, por exemplo, podemos selecionar um texto jornalístico sobre as pessoas que se alimentam de detritos e o poema “Os bichos” de Manuel Bandeira.

Quanto à questão dos estilos literários, cabe dizer que há profissionais que são da opinião que não se deve ensinar seguindo a ordem cronológica, ou seja, abordar os estilos em ordem como são apresentados no MD. Contudo, somos da opinião de que o professor deve seguir a ordem cronológica dos estilos de época. Mas isso não significa dizer que o professor não deva mencionar outros que ainda não tenha trabalhado. O professor precisa se referir sempre que houver oportunidade e necessidade.

Enfim, a Literatura tem e deve ter o seu espaço na escola e na mídia. No caso, da aula de LP, o professor realizando esse tipo de abordagem, aos poucos vai levando os alunos a perceber a praticidade dessa disciplina (a sua importância) e, por consequência, motivando os alunos para a leitura de poemas, romances, etc.

O ensino de Língua Portuguesa e os PCNs

Primeiramente, cabe tecer algumas considerações acerca da origem dos PCNs. As propostas apresentadas por esse documento compõem a reunião dos resultados e pressupostos teóricos de pesquisas desenvolvidas no Brasil desde a década de 1970, cujas bases teóricas (dentre elas, a teoria da enunciação e do discurso e a linguística textual) vão da Sociolinguística à Analise do Discurso.

Quanto ao ensino de LP, cabe ressaltar que essa disciplina está sedimentada em três questões: leitura/escuta, produção textual e analise linguística. Faz-se necessário dizer que embora os autores dos materiais didáticos digam que os elaborados, atualmente, estejam dentro dessas propostas, o que observamos ao analisá-los é o seguinte: há muitas questões a serem aprimoradas em relação a essas três questões. Ainda há muitos exercícios estruturais e enunciados de compreensão/interpretação de texto que não levam o aluno a uma leitura profunda do texto para de fato atender às propostas atuais. Uma delas é com relação à análise linguística. Segundo Geraldi (1997), quanto à análise linguística, o professor deve propor atividades em que seja construído o sentido com o uso de um ou outro elemento gramatical. O professor deve ensinar a gramática com base no funcionamento da língua. A partir disso, explorar a teoria. E assim sempre desenvolver atividades de cunho reflexivo.

Considerações finais

Com base no exposto acima, pretendemos refletir acerca da língua e da cultura pelo fato de serem não só objeto de estudo do professor de LP, como também o veículo de ação social dos professores de outras disciplinas e dos alunos.

O professor de LM deve trabalhar a partir das diferenças, pois a sua sala de aula é repleta de diversidades (os alunos que a compõem são responsáveis por esse cenário). Não havendo como ignorar tal fato, cabe ao professor arregaçar as mangas e trabalhar com e na variedade para formar cidadãos críticos, sujeitos. A não alusão às diferenças e o respeito a elas causam o silenciamento, a submissão e, principalmente, a ilusão nos alunos de que há língua, cultura, raça, credo, etc.; melhor do que o de cada um deles que se sente excluído pelo sistema escolar. Apesar de estarem inscritos numa série, numa escola. Então, a partir dessa terrível realidade, o professor precisa rever sua prática pedagógica urgentemente. Antes que aconteça aqui o que está ocorrendo em Paris. O professor deve desenvolver um trabalho condizente com as necessidades dos alunos e com as propostas dos PCNs, a fim de que possamos ter uma sociedade melhor. Afinal, não compete ao professor levar o aluno a ser sujeito da sua história e não a mero espectador?

Referências Bibliográficas

  • ALMEIDA, Fernando Afonso de. “Desvios e efeitos na produção de enunciados” In: Boletim da ABRALIN. Fortaleza: Imprensa Universitária, 2001.
  • AMOSY, R. Imagens de soi dans le discours. Lausanne: Delachaux, 1999.
  • BAKHTIN, M. Marxismo e filosofia da linguagem. São Paulo: Hucitec, 1986.
  • BENVENISTE, E. Problemas de linguística geral. São Paulo: National Edusp, 1976.
  • BRONCKART, J. P. Atividade de linguagem, textos e discursos. São Paulo: EDUC, 1999.
  • CHIANCA, Rosalina Maria Sales. L’ Enseignement pluriel du francais. In: ELOS. N 2, 1996.
  • DABÈNE, Louise. Variations et rituels en classe de langue. Paris: Hatier, 1990.
  • GOFFMAN, E. “A elaboração da face” In: FIGUEIRA, S. A. (org.). Psicanálise e Ciências Sociais. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1980.
  • KERBRAT-ORECCHIONI, Catherine. Les interactions verbales. Paris: A.Colin, 1990.
  • ––––––. Les actes de langage dans le discours. Paris: Nathan, 2001.
  • KOCH, I. A inter-ação pela linguagem. São Paulo: Contexto, 1997.
  • PARAQUETT, Márcia. Da abordagem estruturalista à comunicativa. In: TROUCHE e REIS (org.). Hispanismo. Brasília: Ministério da Educação, Cultura e Deporto, 2000, vol. 1.
  • REVUZ, Christiane. “ A LE entre o desejo de um outro lugar e o risco do exílio”. In: SIGNOZINI, Inês (org.). Linguagem e identidade. Campinas: Mercado de Letras, 1998.

(Texto Adaptado)

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