Arte e Sociedade

Sala dos Espelhoswww.filosofiaesoterica.com

José De Nicola

Quando se fala da sociologia da arte, costuma-se pensar antes na influência da arte sobre a sociedade do que na influência originada na sociedade e expressada na arte. Costuma-se pensar isso apesar de a arte ser tanto produto como instrumento da influência e introduzir mudanças sociais, modificando-se, por sua vez, com elas. Arte e sociedade não mantêm nenhuma relação unilateral de sujeito-objeto; tanto uma como outra podem desempenhar a função de sujeito ou de objeto.

HAUSER, Arnold. In: Sociología del Arte.

O texto acima aponta para um aspecto muito importante para iniciarmos uma conversa sobre arte: a obra de arte é um produto social e, como tal, é produzida em determinado momento e lugar, ou seja, numa determinada sociedade; por isso, expressa uma forma de ler essa sociedade, posiciona-se em relação a essa sociedade que, no limite, reafirma ou contesta seus valores. Isso resulta num jogo em que tanto a obra de arte como a sociedade são motores que acionam mudanças: a sociedade muda e gera uma obra de arte com diferente leitura dessa sociedade; a obra de arte, ao reafirmar ou questionar valores, gera mudanças na sociedade. Arnold Hauser, comentando esse aspecto utiliza uma imagem muito didática: a de uma sala de espelhos onde um reflete o outro, infinitamente.

Ao falarmos em arte e sociedade, não podemos deixar de lado dois autores fundamentais: o artista e o apreciador da obra de arte. O artista deve ser visto como um ser talentoso, com uma sensibilidade muito apurada que o leva a perceber o mundo à sua volta de uma maneira especial, com absoluto domínio de uma determinada linguagem, e, ao mesmo tempo, como um cidadão, um trabalhador, com todos os compromissos sociais de alguém que vive em uma sociedade organizada, com inúmeros direitos e deveres. Ou, como afirma Marilena Chaui, em seu livro Convite à Filosofia: “O artista é um ser social que busca exprimir seu modo de estar no mundo na companhia dos outros seres humanos, reflete sobre a sociedade, volta-se para ela, seja para criticá-la, seja para afirmá-la, seja para superá-la”.

Finalmente, é preciso salientar o papel do apreciador da obra de arte, que deve promover uma leitura interativa. Ou seja, ele também deve entrar na sala de espelhos e estabelecer uma relação de dependência mútua e ininterrupta com a obra de arte, lembrando sempre que ela é a materialização de uma ideia e se expressa por uma linguagem, o que nos permite afirmar que ela “significa”, ou seja, fala, comunica, pode e deve ser lida pelo outro. Assim, o sentido de uma obra é construído pelo artista, que a produz, e pelo apreciador da arte, que a lê, analisa, interpreta.

NICOLA, José De. Língua, literatura e produção de textos. Vol. 1. Ensino Médio. São Paulo: Editora Scipione, 2009.

Texto literário, texto não-literário

Domício Proença Filho

Imaginemos que, na comunicação cotidiana, alguém nos diga a seguinte frase:

— Uma flor nasceu no chão da minha rua!

Conforme as circunstâncias em que é dita, isto é, de acordo com a situação de fala, entendemos que se refere a algo que realmente ocorreu, corresponde a um fato anterior ao seu enunciado e de fácil comprovação. Mesmo diante de sua transcrição escrita, o que nela se comunica basicamente permanece.

Num ou noutro caso, para veicular essa informação, o nosso interlocutor selecionou uma série de palavras do idioma que nos é comum e, de acordo com as regras que presidem o seu funcionamento e que todos conhecemos, as dispôs numa sequência. A seleção feita e a sucessão estabelecida conferem à frase uma significação que pode ser submetida à prova da verdade em relação à realidade imediata. Como é fácil concluir, é isso que acontece ao nos comunicarmos no dia-a-dia do nosso convívio social.

Retomemos a nossa frase inicial, agora ligeiramente modificada e combinada com outros elementos:

Uma flor nasceu na rua! Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego. Uma flor ainda desbotada ilude a polícia, rompe o asfalto. Façam completo silêncio, paralisem os negócios, garanto que uma flor nasceu.

Sua cor não se percebe. Suas pétalas não se abrem. Seu nome não está nos livros, É feia. Mas é realmente uma flor.

Percebemos, desde logo, que estamos diante de uma utilização especial da língua que falamos. O ritmo que caracteriza o texto, a natureza do que se comunica e, ao chegar até nós por escrito, a distribuição das palavras no espaço do papel justificam essa conclusão. A nossa frase-exemplo depende também, como ato linguístico que é, da gesticulação e da entoação que a acompanharem ao ser enunciada; por força, entretanto, de sua situação nesse conjunto e da associação com as demais afirmações que a ela se vinculam, abre-se para um sentido múltiplo, ganha marcas de ambiguidade: no contexto do fragmento transcrito e da totalidade do poema de que faz parte “A flor e a náusea”, de Carlos Drummond de Andrade¹, podemos entender essa flor como esperança de mudança, por exemplo. Mas esse sentido que o texto a ela confere não reproduz nenhuma realidade imediata; nasce tão-somente do próprio texto. A flor dessa rua deixa de ser um elemento vegetal para alçar-se à condição de símbolo, ganha uma significação que vai além do real concreto e que passa a existir em função do conjunto em que a palavra se encontra. É claro que os versos remetem a uma realidade dos homens e do mundo, mas para além da realidade imediatamente perceptível e traduzida no discurso comum das pessoas, li o que acontece com essa modalidade de linguagem, a linguagem da literatura, tanto na prosa como nas manifestações em verso.

Na prosa, por exemplo, podemos encontrar a palavra flor em outro contexto linguístico e com outro sentido, que lhe é conferido exatamente por essa nova circunstância: trata-se do romance Memórias póstumas de Brás Cubas, em que o termo aparece numa afirmação vinculada a um famoso personagem criado pelo escritor: “Uma flor, o Quincas Borba”².

Aí está um conteúdo inteiramente distinto do que se configura no poema drummondiano e que só pode ser percebido de maneira plena quando a frase é considerada na totalidade do romance em que se insere. É possível perceber a estreita relação entre a dimensão linguística e a dimensão literária que envolve a significação das palavras quando estas integram o sistema semiótico que é o texto literário.

Os três exemplos que acabamos de examinar permitem algumas conclusões.

A fala ou discurso é, no uso cotidiano, um instrumento da informação e da ação. A significação das palavras, nesse caso, tem por base o jogo de relações configuradoras do idioma que falamos. Vincula-se a uma verdade de correspondência.

O mesmo não acontece com o discurso literário. Este se encontra a serviço da criação artística. O texto da literatura é um objeto de linguagem ao qual se associa uma representação de realidades físicas, sociais e emocionais mediatizadas pelas palavras da língua na configuração de um objeto estético. O texto repercute em nós na medida em que revele marcas profundas de psiquismo, coincidentes com as que em nós se abriguem como seres sociais. O artista da palavra, co-partícipe da nossa humanidade, incorpora elementos dessa dimensão que nos são culturalmente comuns. Nosso entendimento do que nele se comunica passa a ser proporcional ao nosso repertório cultural, enquanto receptores e usuários de um saber comum.

O discurso literário traz, em certa medida, a marca da opacidade: abre-se a um tipo específico de descodificação ligado à capacidade e ao universo cultural do receptor.

Já se percebe o alto índice de multissignificação dessa modalidade de linguagem que, de antemão, quando com ela travamos contato, sabemos ser especial e distinta da modalidade própria do uso cotidiano. Quem se aproxima do texto literário sabe a priori que está diante de manifestação da literatura.

¹ ANDRADE, Carlos Drummond de. A rosa do povo. In:__Nova reunião: 19 livros de poesia. Rio de Janeiro/Brasília: J. Olympio/INL, 1983. v. 1, p. 112-3.
² MACHADO DE ASSIS, Joaquim Maria. Memórias póstumas de Brás Cubas. In: __Obra completa. Rio de Janeiro: J. Aguilar, 1959. v. 1, p. 433.

PROENÇA FILHO, Domício. A linguagem literária. Série Princípios. São Paulo: Ática, 2007.