Texto literário, texto não-literário

Domício Proença Filho

Imaginemos que, na comunicação cotidiana, alguém nos diga a seguinte frase:

— Uma flor nasceu no chão da minha rua!

Conforme as circunstâncias em que é dita, isto é, de acordo com a situação de fala, entendemos que se refere a algo que realmente ocorreu, corresponde a um fato anterior ao seu enunciado e de fácil comprovação. Mesmo diante de sua transcrição escrita, o que nela se comunica basicamente permanece.

Num ou noutro caso, para veicular essa informação, o nosso interlocutor selecionou uma série de palavras do idioma que nos é comum e, de acordo com as regras que presidem o seu funcionamento e que todos conhecemos, as dispôs numa sequência. A seleção feita e a sucessão estabelecida conferem à frase uma significação que pode ser submetida à prova da verdade em relação à realidade imediata. Como é fácil concluir, é isso que acontece ao nos comunicarmos no dia-a-dia do nosso convívio social.

Retomemos a nossa frase inicial, agora ligeiramente modificada e combinada com outros elementos:

Uma flor nasceu na rua! Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego. Uma flor ainda desbotada ilude a polícia, rompe o asfalto. Façam completo silêncio, paralisem os negócios, garanto que uma flor nasceu.

Sua cor não se percebe. Suas pétalas não se abrem. Seu nome não está nos livros, É feia. Mas é realmente uma flor.

Percebemos, desde logo, que estamos diante de uma utilização especial da língua que falamos. O ritmo que caracteriza o texto, a natureza do que se comunica e, ao chegar até nós por escrito, a distribuição das palavras no espaço do papel justificam essa conclusão. A nossa frase-exemplo depende também, como ato linguístico que é, da gesticulação e da entoação que a acompanharem ao ser enunciada; por força, entretanto, de sua situação nesse conjunto e da associação com as demais afirmações que a ela se vinculam, abre-se para um sentido múltiplo, ganha marcas de ambiguidade: no contexto do fragmento transcrito e da totalidade do poema de que faz parte “A flor e a náusea”, de Carlos Drummond de Andrade¹, podemos entender essa flor como esperança de mudança, por exemplo. Mas esse sentido que o texto a ela confere não reproduz nenhuma realidade imediata; nasce tão-somente do próprio texto. A flor dessa rua deixa de ser um elemento vegetal para alçar-se à condição de símbolo, ganha uma significação que vai além do real concreto e que passa a existir em função do conjunto em que a palavra se encontra. É claro que os versos remetem a uma realidade dos homens e do mundo, mas para além da realidade imediatamente perceptível e traduzida no discurso comum das pessoas, li o que acontece com essa modalidade de linguagem, a linguagem da literatura, tanto na prosa como nas manifestações em verso.

Na prosa, por exemplo, podemos encontrar a palavra flor em outro contexto linguístico e com outro sentido, que lhe é conferido exatamente por essa nova circunstância: trata-se do romance Memórias póstumas de Brás Cubas, em que o termo aparece numa afirmação vinculada a um famoso personagem criado pelo escritor: “Uma flor, o Quincas Borba”².

Aí está um conteúdo inteiramente distinto do que se configura no poema drummondiano e que só pode ser percebido de maneira plena quando a frase é considerada na totalidade do romance em que se insere. É possível perceber a estreita relação entre a dimensão linguística e a dimensão literária que envolve a significação das palavras quando estas integram o sistema semiótico que é o texto literário.

Os três exemplos que acabamos de examinar permitem algumas conclusões.

A fala ou discurso é, no uso cotidiano, um instrumento da informação e da ação. A significação das palavras, nesse caso, tem por base o jogo de relações configuradoras do idioma que falamos. Vincula-se a uma verdade de correspondência.

O mesmo não acontece com o discurso literário. Este se encontra a serviço da criação artística. O texto da literatura é um objeto de linguagem ao qual se associa uma representação de realidades físicas, sociais e emocionais mediatizadas pelas palavras da língua na configuração de um objeto estético. O texto repercute em nós na medida em que revele marcas profundas de psiquismo, coincidentes com as que em nós se abriguem como seres sociais. O artista da palavra, co-partícipe da nossa humanidade, incorpora elementos dessa dimensão que nos são culturalmente comuns. Nosso entendimento do que nele se comunica passa a ser proporcional ao nosso repertório cultural, enquanto receptores e usuários de um saber comum.

O discurso literário traz, em certa medida, a marca da opacidade: abre-se a um tipo específico de descodificação ligado à capacidade e ao universo cultural do receptor.

Já se percebe o alto índice de multissignificação dessa modalidade de linguagem que, de antemão, quando com ela travamos contato, sabemos ser especial e distinta da modalidade própria do uso cotidiano. Quem se aproxima do texto literário sabe a priori que está diante de manifestação da literatura.

¹ ANDRADE, Carlos Drummond de. A rosa do povo. In:__Nova reunião: 19 livros de poesia. Rio de Janeiro/Brasília: J. Olympio/INL, 1983. v. 1, p. 112-3.
² MACHADO DE ASSIS, Joaquim Maria. Memórias póstumas de Brás Cubas. In: __Obra completa. Rio de Janeiro: J. Aguilar, 1959. v. 1, p. 433.

PROENÇA FILHO, Domício. A linguagem literária. Série Princípios. São Paulo: Ática, 2007.

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