Qual a origem do latim e sua importância na atualidade?

Por Josair Bastos

Origem da língua latina

Latino-americanos, nossa origem.
‘Latinus’ foi um dos primeiros reis da região do ‘Latium’, na península Itálica, há quase mil anos antes de Cristo. ‘Latinus’ unificou muitas tribos, espalhando a semente da, ainda rude, língua latina. Tais tribos ficaram conhecidas como tribos latinas. Como Virgílio narra na Eneida, os latinos foram surpreendidos pela chegada de uma tropa, guiada pelo herói Eneias, que adentrou as terras latinas. Eram os troianos fugidos da lendária cidade de Tróia, destruída pelos gregos. Os latinos, apesar de alguns contratempos, admiraram a força e a história dos guerreiros troianos, acolhendo-os e oferecendo-lhes, mais do que terras, a própria filha do rei, Lavínia, para ser a esposa do líder Eneias. Daqui originou-se a descendência profética, da qual seria fundada uma nova Tróia, a cidade eterna, Roma.

O casamento entre Eneias e Lavínia é o símbolo da fusão entre os povos latino e troiano. É desta união que surge a prole fundarora da lendária cidade de Alba Longa e, por fim, da cidade de Roma, por volta de 753 a.C., tendo Romulus como o primeiro rei da histórica cidade romana.

Desde o período anterior à chegada dos troianos até após a fundação de Roma, a língua permanecente foi o que conhecemos por Prisca Latinitas, “Latim Primitivo ou Antigo”. Os habitantes do Latium que viveram anteriormente à fundação de Roma são chamados de Viri prisci, “Homens do tempo antigo”. Segundo a classificação de Isidóro de Sevilha, o latim pode ser dividido em quatro classes “Latinas autem linguas quattuor esse quidam dixerunt”: Prisca- Latim do período dos primeiros reis do Lácio (Juno e Saturno) ao período das Carmen Saliare (hinos sacerdotais).
Latina- Período em que a região do Latium estruturava-se a partir da Lei das doze tábuas, “Lex Duodecim Tabularum” (base do direito romano).
Romana- Período do latim clássico.
Mixta- Uma “mistura entre Latim Clássico e Latim Vulgar.

Segundo Isidóro de Sevilha, o latim pode ser dividido em quatro classes “Latinas autem linguas quattuor esse quidam dixerunt”:

Há outras classificações de divisão da língua latina, mas cabe ressaltar que, apesar das diferenças, não existiu uma barreira linguística suficientemente acentuada para causar um desentendimento completo da variedade linguística. Ou seja, os romanos da época imperial não tinham grandes problemas para compreender os textos mais antigos.
O auge da literatura latina, a Era de Ouro, abrange o primeiro século antes de Cristo, com os consagrados escritores Virgílio, Horácio, Ovídio, Cícero, entre outros. A literatura latina superava, nesta época, a grega. O poeta Propércio, referindo-se à Eneida de Virgílio, escreveu:

nescio quid maius nascitur iliade

‘algo maior que a Ilíada está nascendo’

Latim Eclesiástico

Já no período depois de Cristo, o apóstolo Pedro fundou a Igreja em Roma. Com o propósito de proximidade ao Império Romano, os católicos escolheriam o latim para ser a língua oficial da Igreja. Porém, o uso do latim se dava, apenas, intra muros, não havia a obrigatoriedade ao uso do latim em locais fora de Roma, e a língua grega era bastante usada pelos cristãos.
Ocorre que, quando um sacerdote mudava-se para alguma região aonde o cristianismo ainda não tinha se estabelecido, ele precisava adaptar as celebrações para as novas línguas regionais, o que, além do trabalho hercúleo, o fazia gastar o seu tempo, inutilmente, pois os novos idiomas não possuíam um vocabulário que traduzisse as expressões dos ritos, advindas de uma tradição religiosa milenar com a nova liturgia da Igreja.
Tal fato expôs uma das necessidades de tornar o latim de uso comum a todas a celebrações da Igreja, em qualquer local da terra. Tal fato levou a Igreja a ser uma grande propagadora do latim na Europa.

Latim como instrumento católico

Dois importantes doutores da Igreja no século lV, Ambrósio e Hilário de Poitiers, além do legado deixado em sermões e escritos, foram grandes propagadores da música na liturgia. Trouxeram hinos em latim para a Igreja do Ocidente, dos quais o próprio Santo Agostinho dissera que alegravam e tornavam as celebrações “mais vivas”. Esses hinos contribuíram para o fortalecimento do Credo Niceno, que combatia, principalmente, a heresia ariana (aquela que negava a divindade de Cristo). Confrontando o imperador Valentiniano II, adepto ao arianismo do norte da Itália, Ambrósio elaborou hinos em nome de uma fé católica (catholica fides) entendida como universal e verdadeira.

A língua latina foi sendo talhada até transformar-se na língua litúrgica por excelência. Trazia consigo antigas inspirações da Koiné e do hebraico, enquanto muitos católicos melhoravam velhos hinos, compunham novos, criando um instrumento profundamente eficaz no fortalecimento da fé da Igreja.

Cantar uma música de ação de graças em português, inglês ou qualquer língua vernácula, pode fazer você “rezar duas vezes”, como dizia Santo Agostinho. Mas celebrar e cantar em latim eclesiástico é cantar na língua que existe somente para este fim, qual seja, revelar a presença de Cristo nesta terra. O latim da Igreja não serve para expressar técnicas mecanicistas. O latim eclesiástico também não serve para narrar histórias de romances ou ficção científica. O latim das celebrações existe somente para honrar o Verbo de Deus. Pois o Verbo se fez carne, e é através do latim que a Carne de Cristo se faz Verbo para expressar a Verdade nos hinos e nas celebrações de todos os tempos.

O latim e as línguas modernas

O latim espalhado por vastas regiões foi sendo desmembrado em vários dialetos, até chegar o momento em que não era mais possível dizer que tais dialetos fossem Latim, ainda que muito próximos.

Os dialetos tornavam-se línguas mais bem estruturadas a partir do momento em que grandes autores iam forjando sua literatura, transformando sua rudeza em línguas amplamente usadas, como o espanhol, francês, português, italiano.

No português nós tivemos Luís de Camões. A sua monumental obra Os Lusíadas foi o grande marco divisor entre uma língua rude e uma língua bem estruturada. Podemos afirmar que foi Luís de Camões que forjou a língua portuguesa, assim como Dante Alighieri o fez com o italiano. Apesar da grande semelhança entre o italiano e o latim, foi o dialeto do italiano que Dante escolheu para escrever a Divina Comédia que tornou-se no dialeto predominante daquele país.

Foi o conhecimento da língua latina destes grandes escritores que lhes conferiu a habilidade necessária para estruturar as línguas vernáculas e forjá-las em línguas mais ricas em suas estruturas, ainda que tais línguas não possam alcançar, plenamente, a riqueza do latim.

Dentre todas as línguas românicas, a última flor do Lácio foi o português. De fato, não fora o português a última língua a se desmembrar do latim, ela foi a última a ganhar uma complexidade suficiente para estar ao lado das outras grandes línguas de origem latina. É nesse sentido que podemos dizer que o português é a última flor do Lácio, onde o Lácio é como uma grande roseira donde brotou muitas flores. As flores foram alimentadas pela seiva da roseira. Conhecer a roseira é mais do que simplesmente conhecer melhor a flor; conhecer o latim é mais do que conhecer melhor o português.

Podemos aprender inglês, espanhol ou qualquer outra língua, mas o latim é mais que aprender, o latim é mais que uma língua. A seiva advinda do Lácio revigora, não apenas os nossos idiomas modernos, mas revigora o nosso modo de perceber, de pensar, de compreender a cultura antiga e a cultura de hoje.

Estudos Nacionais.com – Dez/2019.

https://www.estudosnacionais.com/19827/qual-a-origem-do-latim-e-sua-importancia-na-atualidade/

10 Razões Para Estudar Latim

Josair Bastos

Você pode ter ouvido falar que o latim é uma língua morta. Esta é uma declaração forte e pesada para a maioria dos ouvidos. Os estudiosos, no entanto, usam o termo em um sentido técnico que deixa muito espaço para a especulação. Uma língua “morta” é aquela que não é mais o idioma nativo de nenhuma comunidade, mesmo que ainda seja usada de outras maneiras. Uma língua extinta, por outro lado, é aquela que não possui mais falantes ou uso escrito. Algumas línguas também são chamadas de línguas litúrgicas, porque continuam a ser usadas em contextos religiosos, ou línguas clássicas, que continuam a ser estudadas e lidas através de um rico corpo de literatura antiga.

O latim é uma língua clássica e litúrgica, uma língua morta que nunca morreu. Com isso, queremos dizer que, embora o latim não seja um idioma nativo de alguma comunidade, ele ainda é falado (mesmo que apenas por algumas comunidades) e é comumente estudado e lido por vários motivos benéficos e convincentes.

O latim também vive através das línguas em que deu origem: francês, italiano, espanhol, português e romeno – as línguas românicas. Cerca de 90% do vocabulário dessas línguas vêm do latim. Essas línguas românicas são na verdade formas de latim que evoluíram ao longo dos séculos em várias regiões com alguma interação de outras línguas locais.

Existem muitas boas razões para estudar latim. Aqui está uma lista das dez melhores:

  1. Tornando-se poliglota: como você já deve ter adivinhado, estudar latim é uma preparação fantástica para aprender e tornar-se fluente em um ou mais idiomas do romance. Portanto, aprender latim é começar um estudo de seis idiomas ao mesmo tempo.
  2. Vocabulário e gramática do inglês: estudar latim prepara os alunos para o domínio do inglês. Os estudantes de latim normalmente obtêm a melhor nota nos testes de vocabulário em inglês! Isso não surpreende, pois 50% do inglês é derivado do latim – com mais de 80 das palavras polissilábicas derivadas do latim. A gramática regular do latim também é ideal para esclarecer a maneira como todos os idiomas, incluindo o inglês, funcionam. Do mesmo modo, o estudante de latim alcança o domínio da língua portuguesa, que possui muito mais similaridades com a língua latina que o inglês).
  3. As profissões: latim prepara os alunos para várias profissões importantes que são mergulhadas em palavras latinas ou inglesas derivadas do latim. Isso inclui direito, medicina, ciência, música, teologia, filosofia, arte e literatura, entre outras.
  4. Escrever e Ler: um vocabulário e uma compreensão gramatical mais ampla permitem que os alunos escrevam e leiam com maior facilidade e clareza.
  5. Literatura: o latim permite que os alunos tenham melhor acesso à literatura, repleta de referências e citações em latim.
  6. História: o latim permite que os alunos compreendam e apreciem melhor o Império Romano, que teve efeitos profundos e contínuos na civilização ocidental. Além disso, a história da arte e da arquitetura está repleta de latim, e monumentos e artes em todo o mundo são frequentemente agraciados com o latim.
  7. Ótima literatura: o latim permite que os alunos desfrutem de algumas das publicações mais influentes do mundo – no idioma original. Aprender latim bem o suficiente para ler obras latinas originais é uma habilidade alcançável e transmite grande satisfação e prazer.
  8. Virtude educacional: o estudo do latim é uma prática contínua na solução de quebra-cabeças linguísticos que geralmente ajuda os alunos a se tornarem leitores e escritores próximos e cuidadosos. Muitos acreditam que geralmente também aprimora as faculdades mentais, cultivando cuidadosa análise e atenção. Quando perguntado a um conhecido pesquisador de câncer, Dr. Charles Zubrod (que ajudou a desenvolver tratamento quimioterápico para pacientes com leucemia), o que o havia melhor preparado para uma vida de pesquisa médica, ele respondeu: “estudando latim e grego quando criança”.
  9. Prazer: decifrar o “código secreto” do latim, ver as palavras por trás das palavras, aprender a resolver quebra-cabeças e ler grandes autores em sua própria língua são todos prazeres que durarão a vida inteira dos alunos.
  10. Aprendizado simultâneo: como você pode ver, estudar latim é uma maneira de fazer estudos avançados em várias áreas simultaneamente. É por isso que a consideramos uma arte mestra – como uma ferramenta, ela permite dominar outras coisas, outros assuntos. Não é de admirar que tenha sido matéria obrigatória nas escolas durante séculos.

Espero que, ao revisar a lista acima, você veja como o latim ainda está muito vivo – ele vive na sua língua agora, afirmando-se com todas as outras palavras que você fala. Espero que você faça um estudo dessa língua e apresente a seus filhos também. Embora seja um estudo desafiador, ele trará vida ao aprendizado e abrirá uma dúzia de portas diferentes em tantos caminhos aventureiros.

(Texto adaptado da matéria 10 Reasons to Study Latin, de Christopher Perrin)

Estudos Nacionais.com – Jan/2020.

https://www.estudosnacionais.com/20453/10-razoes-para-estudar-latim/

A busca pela mãe de todas as línguas

Os três mil idiomas atuais podem ter a mesma origem. Na busca pela língua-mãe, pesquisadores descobrem semelhanças incríveis que talvez não sejam coincidências.

Recolhido a seus aposentos numa certa noite do fim do século VII a.C., Psamético, um dos últimos faraós do Egito, que reinou de 664 a 610 a.C., refletia sobre as línguas que os homens falavam. Sua riqueza e diversidade, as semelhanças e as diferenças entre as palavras, as pronúncias, as inflexões de voz, tudo o fascinava – principalmente a ideia de que essa multiplicidade tinha uma origem comum, uma língua-mãe falada por toda a humanidade num tempo muito remoto, como afirmavam as lendas da época. O faraó imaginou então uma experiência engenhosa e cruel. Convencido de que, se ninguém ensinasse os bebês a falar, eles se expressariam naquele idioma original, determinou que dois irmãos gêmeos fossem tirados da mãe logo ao nascer e entregues a um pastor para que os criasse. O pastor recebeu ordens severas, sob pena de morte, de jamais pronunciar qualquer palavra na presença das crianças.

Quando completaram dois anos, o faraó mandou que se deixasse de alimentá-las, na suposição de que a pressão da fome faria com que pedissem comida em sua “língua natural”. Não se sabe bem o que aconteceu, mas tudo indica que o pastor, movido pela compaixão, não fez exatamente o que lhe havia sido ordenado. Pois o inverossímil relato enviado ao faraó informava que um dos meninos, faminto, havia pedido pão em cíntio, idioma falado antigamente na região que viria a ser a Ucrânia, na União Soviética. Assim, satisfeito com o desfecho da impiedosa pesquisa, Psamético decretou que o cíntio era a língua original da humanidade. Por incrível que pareça, a experiência seria repetida dezenove séculos mais tarde. O idealizador foi o rei germânico Frederico II (1194-1250), que pelo visto não se convenceu das conclusões do faraó. Certamente vigiado mais de perto, o experimento resultou no inevitável: os dois gêmeos morreram.

De Psamético I aos dias de hoje, passando por Frederico II, muitos outros homens igualmente curiosos se perguntaram qual teria sido e como seria possível reviver o idioma do qual brotaram todos os demais. Essa indagação se transformou modernamente numa área de pesquisa de ponta em Linguística, a ciência que estuda a evolução das línguas, suas estruturas e possíveis inter-relações no quadro histórico e social. Os estudos viriam confirmar a crença dos antigos. Segundo o linguista Cidmar Teodoro Pais, da Universidade de São Paulo, a comparação entre as várias línguas do planeta, tanto as ainda faladas quanto as já desaparecidas, revela efetivamente algumas características comuns que apontam para a possível existência de uma língua primeira, mãe de todas. Nesse ponto, a Linguística parece se afinar com as mitologias que descrevem a dispersão das línguas pelo mundo.

A mais conhecida delas é a história bíblica da Torre de Babel. Segundo o Antigo Testamento, a multiplicação das línguas foi um castigo de Deus à pretensão dos homens de construir uma torre cujo topo penetrasse no céu. As lendas chinesas contam que a divisão da língua original fez com que o universo “se desviasse do caminho certo”. Na mitologia persa, Arimã, o espírito do mal, pulverizou a linguagem dos homens em trinta idiomas. E um dos livros sagrados dos maias, o Popol Vuh, lamenta: “Aqui as línguas da tribo mudaram – sua fala ficou diferente. (…) Nossa língua era uma quando partimos de Tulán. Ai! Esquecemos nossa fala”.

Hoje muitos linguistas estão empenhados em passar da lenda à verdade histórica, mas a tarefa é de extrema dificuldade. O exercício da Linguística como ciência, por sinal, está longe de ser uma atividade simples ou compensadora. Ao contrário, linguistas frequentemente passam anônimos pelo mundo, ao contrário de outros escavadores do passado humano, como os arqueólogos e paleontólogos. Grandes nomes da Linguística deste século, os franceses Ferdinand de Saussure, Émile Benveniste e o americano Noam Chomsky são ilustres desconhecidos para o público leigo. “Definitivamente”, resigna-se o linguista Flávio di Giorgi, da Universidade Católica de São Paulo, “esta ciência que se faz debruçado sobre manuscritos antigos, inscrições ou reconstituições de línguas não tem qualquer vocação para ser popular”.

Para quem gosta, porém. é um prato cheio. “Já me diverti muito estudando Linguística”, conta Teodoro Pais, um professor de óculos de lentes grossas, fala mansa e hábitos metódicos, no ramo há trinta de seus cinquenta anos de vida. Afinal, os atuais cinco bilhões de seres humanos se comunicam recorrendo a um estoque de cerca de três mil línguas espalhadas pelos quatro cantos do mundo. Essas, mais outros milhares já esquecidas que deixaram algum tipo de registro escrito, foram agrupadas em doze famílias linguísticas importantes e cinquenta menos importantes.

Essas duas grandes arrumações familiares aparentemente nada têm em comum – e eis aí a suprema dificuldade dos pesquisadores: eles farejam semelhanças onde o que salta aos olhos são diferenças. As buscas, contudo, têm o estímulo das barreiras já derrubadas. Quem diria, por exemplo, que há algum parentesco, embora remoto, entre o português e o sânscrito, uma língua falada na Índia há milhares de anos, e ainda a sua versão moderna, o hindi? E, no entanto, o parentesco existe.

Descobriram os linguistas que esses idiomas descendem de um mesmo e único tronco, o indo-europeu, pertencendo portanto à grande família das línguas indo-europeias que inclui também o grego, o armênio, o russo, o alemão, entre muitas outras. Hoje, aproximadamente a metade da população mundial tem como língua nativa um idioma dessa família. Foi justamente a descoberta do parentesco entre o sânscrito e as línguas europeias, no século XVIII, que fez nascer a Linguística histórica, dedicada a investigar essas similaridades. A tese da origem comum foi proposta em 1786 por Sir William Jones, um jurista inglês cujo passatempo era estudar as culturas orientais. A partir de então, os linguistas europeus passaram a se dedicar a duas tarefas: uma, refazer passo a passo a árvore genealógica dessa família, trilhando a história de sua evolução; outra, reconstituir a língua perdida que dera origem a todas, o indo-europeu. Esse trabalho não se faz às cegas, ou por ensaio e erro. A pesquisa percorre o caminho aberto pelas leis linguísticas, resultantes de outros estudos, que mostram como os sons e os sentidos das palavras evoluem com o tempo, promovendo a transformação das línguas. Essas leis são estabelecidas a partir de comparações entre palavras. Por exemplo, do latim lacte e nocte vieram as formas leite e noite. Comparando-se os termos, percebe-se que o “c” (/k/) das palavras em latim virou “i” (/ĭ/) nos vocábulos em português. No século passado, o trabalho dos linguistas se apoiou fortemente numa lei formulada em 1822 pelo alemão Jacob Grimm (1785-1863), mais conhecido pelos contos de fadas que escreveu com seu irmão Wilhelm, entre os quais “Branca de Neve e os Sete Anões”.

A lei de Grimm afirmava ser possível prever como alguns grupos de consoantes se modificariam com o tempo nas línguas indo-europeias. Entre outras coisas, ele dizia que uma consoante forte ou sonora (pronunciada fazendo-se vibrar as cordas vocais) tendia a ser substituída por sua equivalente fraca ou surda (pronunciada sem vibração das cordas vocais). As consoantes /b/ e /p/ constituem um par desse tipo, assim como /d/ e /t/. As /b/ e /d/ são fortes, /p/ e /t/ são fracas, como se pode comprovar, pronunciando-as com a mão na garganta. Com base nessas leis, foi possível mostrar, por exemplo, que a forma dhar em sânscrito, que significa puxar, trazer, originou o inglês draw, o alemão tragen, o latim trahere e o português trazer, todos com significado semelhante. O fonema /d/ da palavra em sânscrito virou /t/ nas outras línguas. Pode-se concluir ainda que a palavra em inglês evoluiu menos que nas demais, pois se manteve fiel ao som original do sânscrito.

Os linguistas puderam assim “estabelecer um modelo confiável das relações familiares entre as línguas”, conta o paulista di Giorgi, “construindo um modelo bastante aceitável do que teria sido a língua ancestral – o proto-indo-europeu”. O que se ambiciona, porém é uma descoberta muito maior. Dispondo das reconstituições dos ancestrais de grande parte das famílias mais importantes, os linguistas tentam achar relações entre as próprias protolínguas. O primeiro e maior obstáculo é justamente o material de que dispõem. Apesar de resultarem de cuidadosa montagem científica, as protolínguas não passam de modelos, pouco mais que sombras do que terão sido as línguas antigas. Algo como um dinossauro de museu em relação ao bicho verdadeiro.

“Nesse ponto, a análise avança com base na cultura, pois não se dispõem mais de documentos escritos”, explica Teodoro Pais, da USP, que conhece sânscrito e gostava de trocar cartas com os colegas em proto-indo-europeu. Toda língua produz e reflete cultura e não é à toa que, fundamentados nas palavras reconstituídas da protolíngua, os pesquisadores podem inferir com razoável margem de confiança os hábitos do povo que a falava. Com esses dados é possível construir pontes até outros grupos aparentemente não relacionados. Por exemplo, tanto nas línguas indo-europeias quanto no grupo semítico, as palavras homem e terra originalmente se confundem. Em hebraico, são respectivamente adam e adamah, ambas derivadas de uma raiz comum em proto-semítico.

Em proto-indo-europeu, a palavra dheghom tem os dois significados. A parte final originou o latim homo (homem) e humus (terra, solo). Assim, embora não haja parentesco etimológico algum entre as palavras semíticas e indo-europeias, é clara a semelhança quanto à maneira de pensar e classificar o mundo entre as populações de ambos os grupos linguísticos. As mais recentes descobertas da Arqueologia e até da Genética conduzem à mesma ideia: é possível agrupar as grandes famílias em famílias ainda maiores, um avanço formidável na busca da língua-mãe. Há mais de vinte anos, os linguistas russos Vladislav M. Illich Svitch e Aron Dolgopolsky propuseram que o indo-europeu, o semítico e a família das línguas dravídicas da Índia poderiam fazer parte de uma superfamília, chamada então nostrática. Na época, o trabalho foi encarado com desconfiança. Depois, ganhou alguma aceitação nos meios científicos. Há pouco, enfim, uma descoberta da Genética parece ter dado nova projeção ao trabalho dos soviéticos.

A partir de análises de grupos sanguíneos de várias populações, a equipe do geneticista Allan C. Wilson, da Universidade da Califórnia, em Berkeley, concluiu que há um grande parentesco genético entre os falantes das línguas indo-europeias, semíticas e dravídicas. Isso quer dizer que, ocupando uma vastíssima porção do planeta, da Ásia às Américas, eles têm mais em comum entre si do que, digamos, com os japoneses ou os esquimós. Essa descoberta coincide de forma espantosa com a teoria da superfamília nostrática. Em outra frente, pesquisas arqueológicas e linguísticas estão finalmente determinando o local de origem do proto-indo-europeu – um dos objetivos dos linguistas desde o século passado.

Até os anos quarenta, os pesquisadores acreditavam que o berço do indo-europeu estava situado no norte da Alemanha e da Polônia. Essa teoria, sustentada por deduções bastante ingênuas, foi usada nada ingenuamente pelos nazistas para confirmar sua teoria de que a raça tida como pura dos arianos surgira ali mesmo. Os linguistas imaginavam que, se fosse possível estabelecer um pequeno vocabulário comum à maioria das línguas indo-europeias, estariam diante de algumas palavras localizadoras, sobreviventes do proto-indo-europeu, em cuja terra natal seriam ainda faladas. Uma dessas tentativas estabeleceu três palavras localizadoras – tartaruga, faia (uma árvore) e salmão. O único lugar onde todas elas podiam ser encontradas era uma área da Europa Central entre os rios Elba, Oder e Reno, na Alemanha, de um lado, e o Vístula, na Polônia, de outro. Ali havia salmões, tartarugas e faias. Não havia tartarugas ao norte da fronteira alemã, faias a leste do Vístula nem salmões a oeste do Reno. O método acabou desacreditado, pois muitas das palavras localizadoras estão sujeitas a mudanças de sentido, não sendo portanto instrumentos confiáveis.

As pesquisas mais recentes afirmam que o proto-indo-europeu era falado há cerca de seis mil anos na Ásia e não na Europa Central. Dois trabalhos, um do americano Colin Renfrew, outro dos soviéticos Thomas Gamkrelidze e V. V. Ivanov, concordam ao apontar o berço do indo-europeu como o planalto da Anatólia, uma região que vai da Turquia à República da Armênia, que faz parte da União Soviética. Dali, movidos pela busca de terras férteis e de novos campos de caça, os indo-europeus migraram, há uns cinco milênios, seja para a Europa, seja para a Ásia. A corrida à procura da língua-mãe está apenas começando mas desde já nessa aventura científica não faltam algumas descobertas insólitas.

Uma delas é a incrível semelhança de palavras entre as línguas indígenas da América pré-colombiana e idiomas falados pelos povos do Mediterrâneo e Oriente Médio. Por exemplo, os índios araucanos do Chile usam a mesma palavra que os antigos egípcios, anta, para designar o Sol e a mesma palavra que os antigos sumérios, bal, para machado. A palavra araucana para cidade é kar, semelhante a cidade em fenício, que é kart. Há mais: a palavra maia thallac, que designa “o que não é sólido”, é semelhante a Thallath, o nome da deusa do caos na antiga Babilônia. Curiosamente, thallac lembra ainda thalassa, mar em grego, e Tlaloc, o deus asteca da chuva. Shapash, o deus-sol dos fenícios, é também o deus-sol dos índios klamath, no Oregon, Estados Unidos. Essas misteriosas semelhanças escapam a qualquer tentativa de classificação. Mas, como disse certa vez Albert Einstein, o mistério é a fonte de toda verdadeira ciência. Desde que, para resolvê-lo, não seja preciso negar comida a crianças, como fizeram um faraó egípcio e um rei germânico.

Superinteressante (Adaptado). https://super.abril.com.br/comportamento/em-busca-da-lingua-mae/

Língua e Cultura

Renata da Silva de Barcellos
Fernanda da Silva de Barcellos

A comunicação tem por objetivo propor uma reflexão acerca da relevância do aspecto cultural no processo de ensino-aprendizagem de línguas, a fim de mostrar como o não conhecimento da cultura pode comprometer a face dos interagentes. Para isso, serão utilizados conceitos como interação e negociação (KERBRAT-ORECCHIONI, 2005) e preservação de face (GOFFMAN, 1980).

Linguagem & língua

A partir da leitura da linguagem verbal e da não-verbal, constatamos que para falarmos e sermos compreendidos, ou seja, para interagirmos com outras pessoas por meio de palavras, precisamos ter domínio de uma língua. A língua é assim um veículo de ação social. E como tal, devemos levar em consideração que falar uma língua não se restringe ao vocabulário, é preciso ter domínio também da estrutura da língua e de sua cultura para não só construir adequadamente um enunciado, como também saber se comportar e depreender o sentido dos diversos atos de linguagem de uma determinada língua.

Enfim, a linguagem é o centro dos homens – meio de comunicação e modo de estar no mundo. É na e através dela que há o entendimento ou não entre os homens. A fala é, portanto, uma atividade social (GOFFMAN: 1980) porque é sempre endereçada ao outro com uma determinada intencionalidade, num momento e num espaço.

Variedades linguísticas

A partir do momento em que o homem coloca a linguagem em uso, ocorre a interação verbal, que por sua vez é “o lugar de uma atividade coletiva de produção de sentido, atividade que implica o emprego de negociações explicitas ou implícitas que podem ter êxito ou fracassar” (KERBRAT-ORECCHIONI, 1990: 28). Por isso, ao interagir, emissor e destinatário compartilham códigos e negociam sentidos e posições. Assumindo assim a linguagem o seu estatuto de ação (BRONCKART: 1999) no outro e sobre o outro. Isso significa que toda atividade humana é regulada pela linguagem, mediada pelo agir comunicativo.

Outra questão a ser ressaltada é de que ao aprender a língua materna (LM), o homem assimilará as características pertinentes àquela região. A esses fatores próprios de cada região, tempo e grupo social, chamamos de variedades linguísticas. Ou seja, a língua possui diferenças internas classificadas em diatópicas (espaço geográfico), diastrática (camadas socioculturais) e diafásica (aspecto expressivo). Por exemplo, a palavra sinistro, que outrora tinha valor negativo, atualmente, os jovens a utilizam com valor positivo (significa algo bom). O homem pode também criar outras para designar novas realidades, por exemplo, na área da informática foi criado o verbo deletar (inglês delete) para nomear a ação de apagar e para nomear homem vaidoso foi criada a palavra metrossexual (prefixo metro + radical sexual). Verifica-se assim que a linguagem é um fenômeno social, o homem se constitui enquanto sujeito ouvindo e assimilando as palavras e os discursos do outro.

Enfim, é imprescindível que o professor mostre ao aluno que as línguas (Portuguesa e estrangeiras) não são homogêneas. Ou seja, é preciso que o professor desenvolva um trabalho enfatizando essas diversidades existentes nas línguas. E ressalte que não há nenhuma variedade melhor ou mais correta do que outras.

Preservação da face

Quando uma pessoa endereça a fala ou a escrita a alguém, leva-se em consideração não só o contexto a fim de adequar o registro da língua, o tipo de postura, de vestimenta, etc.; como também as características do interlocutor para preservar a face de ambos implicados numa dada interação. O princípio da preservação de faces é fundamental numa interação, pois cada povo com sua língua materna possui regras culturais que estabelecem como cada indivíduo deve conduzir no convívio social.

Por isso, quando alguém no decorrer do seu discurso apresenta algo inesperado, às vezes, até mesmo infringindo as regras de boa conduta estabelecidas, ocorre o desvio na linguagem, que pode ser classificado como mal-entendido ou gafe (dentre outros). Tanto um quanto o outro deixa a face de um dos interlocutores ou de ambos ameaçada. Portanto, no discurso, o homem recorre a diferentes recursos/estratégias a fim de não comprometer a si mesmo e/ou aquele a quem se dirige, como no seguinte exemplo: <>. O enunciado que consiste num ato de linguagem indireto tem o valor elocutório de pedido pelo fato do enunciador possivelmente estar achando a comida sem sal. Caso o convidado se dirigisse para o anfitrião dizendo: <<Hum, que comida sem sal>>, certamente, o efeito deste enunciado, infrator das regras culturais, sobre o destinatário seria de ofensa e, portanto, a face do locutor estaria completamente exposta a receber qualquer tipo de resposta. É importante ressaltar também que há sociedades em que a face dos interagentes fica mais ameaçada do que em outras, devido às regras de convívio social, o que pode ser observado no seguinte exemplo:

Num estágio de verão de professores de francês, um professor marroquino, ao dirigir-se a uma professora brasileira, lhe diz:

– Você vale muitos camelos.

– Mal-educado, retruca a gaúcha.

Por não conhecer a cultura marroquina, a brasileira não foi capaz de captar a intenção do professor (que, ao realizar tal ato, almejava elogiá-la). Como não reconheceu a força elocutória do ato, o efeito produzido foi o de insulto, de uma ofensa de tal forma que suscitou a réplica (mal-educado), por parte dela. Deixando assim não só a sua face ameaçada (por não perceber a força elocutória do ato realizado pelo marroquino) como a do marroquino (através da sua resposta <>).

Cultura

Segundo Paraquett, cultura é “o conjunto de tradições, de estilo de vida, de formas de pensar, sentir e atuar de um povo” (2000: 118). A partir dessa definição, o professor de línguas deve ter consciência de que, na sala de aula, ele é um representante da cultura de um povo. Pois, o professor de línguas é um difusor de uma dada cultura, visto que a língua é um dos aspectos culturais da sociedade. Portanto, a língua não está dissociada da cultura, ou seja, uma não existe sem a outra, não é mais importante, apenas se complementam.

Dessa forma, ao ministrar aulas de LM ou LE, o professor deve destacar os aspectos semelhantes e distintos entre as línguas, sempre ratificando que cada grupo social tem seus hábitos e costumes e assim cada qual vê o mundo de uma forma. Não podemos exigir que o outro, no caso o estrangeiro, perceba o mundo da mesma forma que a nossa e vice-versa.

A partir dessas considerações, podemos dizer que a diferença existente entre LM e LE é o fato de a LM ser a que o falante desde a infância se sente mais à vontade para se expressar de modo mais natural e espontâneo. Simbolicamente, pode ser representada pelo colo da mãe (CHIANCA, 2001), já que se sente acolhido como o bebê que é protegido pelo seio materno. Quando o falante entra em contato com outra língua, sua LM se torna a língua espelho (DABÈNE, 1990: 16), pois a aprendizagem de uma outra língua proporciona ao aprendiz um olhar exterior à sua LM como se fosse um falante de outra língua. Falar outra língua é assim “navegar à procura de si mesmo” (REVUZ Apud SIGNOZINI, 1998: 7).

Cabe ressaltar que ao longo das décadas, a metodologia ignorou ou utilizou muito pouco o aspecto cultural no processo de ensino-aprendizagem de uma LE. Pois, a ênfase continua sendo o aspecto linguístico (exercícios estruturais, regras de uso, etc.). Assim, ao longo das aulas de acordo com os conteúdos trabalhados, o professor deve se referir ao aspecto cultural. Por exemplo, ao trabalhar o conteúdo alimentação, o professor pode explanar acerca dos hábitos alimentares daquele povo, os pratos típicos, as receitas e a etiqueta de como se comportar a mesa. Concomitantemente, deve verificar as semelhanças e diferenças entre as culturas. A partir desse tipo de trabalho, o professor deve sempre ressaltar que não há cultura melhor do que a outra, pois como cada um de nós temos características próprias, os habitantes de uma região constroem em conjunto seus hábitos, suas regras, suas religiões, sua língua, suas tradições, etc. E, a partir da nossa realidade, o professor pode mostrar ao aluno que apesar de haver essas semelhanças, cada um tem a sua individualidade.

É inadmissível pensar o ensino de uma LE sem que o professor se refira à cultura do povo da língua-alvo. Imagine você em Paris tocando as pessoas ao se dirigir a elas. Essa ação é considerada invasão do território de cada pessoa. E o resultado desse ato pode ser extremamente constrangedor. Assim como é também a questão de se dirigir ao outro para comprar um produto em que há toda uma mise-em-scène. Caso você não o faça, você estará infringindo as regras sociais impostas por aquela cultura. Quando o professor for se referir a algum aspecto cultural da língua-alvo, pode pedir para que os alunos representem como fazem na sua cultura para destacar semelhanças e diferenças. Outra forma de abordar o aspecto cultural é o professor utilizar textos literários, pois representam a cultura de um povo. Assim, ao propor atividades com texto literário, o professor deve discorrer sobre a sociedade e o autor na época em que o texto foi escrito.

O espaço da Literatura na aula de Língua Portuguesa

Como bem disse Bechara, o professor de línguas é professor de linguagens. E como tal, deve trabalhar, concomitantemente, textos literários ao longo das aulas. Pois, a Literatura é a forma de expressão das pessoas de uma sociedade num determinado tempo e espaço. Portanto, como pode um profissional da área de Letras não abordar os diversos estilos, características, etc.? Será, então, que não trabalha também produção textual? Afinal, o texto literário é um tipo de texto. E, por isso, o professor deve trabalhá-lo, até mesmo por causa da questão da intertextualidade que está cada vez mais presente nos enunciados da mídia. A partir da exploração desse tipo de texto e de seus gêneros (poesia, romance, etc.) funcionarem com uma estratégia para se verificar se os alunos assimilaram as características, os autores e as obras de um determinado estilo literário; o professor deve mostrar que se trata de um recurso para enriquecer o texto.

Cabe ressaltar que, ao trabalhar os diversos conteúdos gramaticais, o professor pode e deve fazê-lo também a partir do texto literário. Por exemplo, o tema da colocação pronominal, o professor pode selecionar o poema de Oswald de Andrade. Só não devemos fazer como outrora, em que o material didático só explorava o texto literário. Hoje, se não tomarmos cuidado incorreremos no mesmo erro. Sendo que agora é de utilizarmos apenas texto midiático. Por isso, o professor deve ter cuidado de não utilizar um em detrimento do outro ao longo da sua prática. A Literatura é o modo de expressão de um povo num determinado contexto sócio-político-econômico-cultura. Ao utilizá-lo em sala de aula, estaremos contribuindo para a preservação da memorial social da nossa pátria. Ou seja, para que os alunos valorizem a produção cultural do nosso país.

Uma sugestão é de professor desenvolver um trabalho comparativo entre o texto jornalístico e o texto literário. Nesse trabalho o objetivo é de levar o aluno a perceber que embora o tema seja comum, as características são distintas. Mas, atualmente, percebemos que o texto jornalístico está cada vez mais preocupado com a estética. Característica essa própria da Literatura. Assim, por exemplo, podemos selecionar um texto jornalístico sobre as pessoas que se alimentam de detritos e o poema “Os bichos” de Manuel Bandeira.

Quanto à questão dos estilos literários, cabe dizer que há profissionais que são da opinião que não se deve ensinar seguindo a ordem cronológica, ou seja, abordar os estilos em ordem como são apresentados no MD. Contudo, somos da opinião de que o professor deve seguir a ordem cronológica dos estilos de época. Mas isso não significa dizer que o professor não deva mencionar outros que ainda não tenha trabalhado. O professor precisa se referir sempre que houver oportunidade e necessidade.

Enfim, a Literatura tem e deve ter o seu espaço na escola e na mídia. No caso, da aula de LP, o professor realizando esse tipo de abordagem, aos poucos vai levando os alunos a perceber a praticidade dessa disciplina (a sua importância) e, por consequência, motivando os alunos para a leitura de poemas, romances, etc.

O ensino de Língua Portuguesa e os PCNs

Primeiramente, cabe tecer algumas considerações acerca da origem dos PCNs. As propostas apresentadas por esse documento compõem a reunião dos resultados e pressupostos teóricos de pesquisas desenvolvidas no Brasil desde a década de 1970, cujas bases teóricas (dentre elas, a teoria da enunciação e do discurso e a linguística textual) vão da Sociolinguística à Analise do Discurso.

Quanto ao ensino de LP, cabe ressaltar que essa disciplina está sedimentada em três questões: leitura/escuta, produção textual e analise linguística. Faz-se necessário dizer que embora os autores dos materiais didáticos digam que os elaborados, atualmente, estejam dentro dessas propostas, o que observamos ao analisá-los é o seguinte: há muitas questões a serem aprimoradas em relação a essas três questões. Ainda há muitos exercícios estruturais e enunciados de compreensão/interpretação de texto que não levam o aluno a uma leitura profunda do texto para de fato atender às propostas atuais. Uma delas é com relação à análise linguística. Segundo Geraldi (1997), quanto à análise linguística, o professor deve propor atividades em que seja construído o sentido com o uso de um ou outro elemento gramatical. O professor deve ensinar a gramática com base no funcionamento da língua. A partir disso, explorar a teoria. E assim sempre desenvolver atividades de cunho reflexivo.

Considerações finais

Com base no exposto acima, pretendemos refletir acerca da língua e da cultura pelo fato de serem não só objeto de estudo do professor de LP, como também o veículo de ação social dos professores de outras disciplinas e dos alunos.

O professor de LM deve trabalhar a partir das diferenças, pois a sua sala de aula é repleta de diversidades (os alunos que a compõem são responsáveis por esse cenário). Não havendo como ignorar tal fato, cabe ao professor arregaçar as mangas e trabalhar com e na variedade para formar cidadãos críticos, sujeitos. A não alusão às diferenças e o respeito a elas causam o silenciamento, a submissão e, principalmente, a ilusão nos alunos de que há língua, cultura, raça, credo, etc.; melhor do que o de cada um deles que se sente excluído pelo sistema escolar. Apesar de estarem inscritos numa série, numa escola. Então, a partir dessa terrível realidade, o professor precisa rever sua prática pedagógica urgentemente. Antes que aconteça aqui o que está ocorrendo em Paris. O professor deve desenvolver um trabalho condizente com as necessidades dos alunos e com as propostas dos PCNs, a fim de que possamos ter uma sociedade melhor. Afinal, não compete ao professor levar o aluno a ser sujeito da sua história e não a mero espectador?

Referências Bibliográficas

  • ALMEIDA, Fernando Afonso de. “Desvios e efeitos na produção de enunciados” In: Boletim da ABRALIN. Fortaleza: Imprensa Universitária, 2001.
  • AMOSY, R. Imagens de soi dans le discours. Lausanne: Delachaux, 1999.
  • BAKHTIN, M. Marxismo e filosofia da linguagem. São Paulo: Hucitec, 1986.
  • BENVENISTE, E. Problemas de linguística geral. São Paulo: National Edusp, 1976.
  • BRONCKART, J. P. Atividade de linguagem, textos e discursos. São Paulo: EDUC, 1999.
  • CHIANCA, Rosalina Maria Sales. L’ Enseignement pluriel du francais. In: ELOS. N 2, 1996.
  • DABÈNE, Louise. Variations et rituels en classe de langue. Paris: Hatier, 1990.
  • GOFFMAN, E. “A elaboração da face” In: FIGUEIRA, S. A. (org.). Psicanálise e Ciências Sociais. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1980.
  • KERBRAT-ORECCHIONI, Catherine. Les interactions verbales. Paris: A.Colin, 1990.
  • ––––––. Les actes de langage dans le discours. Paris: Nathan, 2001.
  • KOCH, I. A inter-ação pela linguagem. São Paulo: Contexto, 1997.
  • PARAQUETT, Márcia. Da abordagem estruturalista à comunicativa. In: TROUCHE e REIS (org.). Hispanismo. Brasília: Ministério da Educação, Cultura e Deporto, 2000, vol. 1.
  • REVUZ, Christiane. “ A LE entre o desejo de um outro lugar e o risco do exílio”. In: SIGNOZINI, Inês (org.). Linguagem e identidade. Campinas: Mercado de Letras, 1998.

(Texto Adaptado)

 Copyright © Círculo Fluminense de Estudos Filológicos e Linguísticos